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ME
Jos de
Alencar
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ME
Drama em Quatro Atos
 MINHA ME
E MINHA SENHORA
D. ANA J. DE ALENCAR
Me,
Em todos os meus livros h uma pgina que me foi inspirada por ti. 
aquela em que fala esse amor sublime que se reparte sem dividir-se e
remoa quando todas as afeies caducam.
Desta vez no foi uma pgina, mas o livro todo.
Escrevi-o com o pensamento em ti, cheio de tua imagem, bebendo em tua
alma perfumes que nos vm do cu pelos lbios maternos. Se, pois,
encontrares ai uma dessas palavras que dizendo nada exprimem tanto,
deves sorrir-te; porque foste tu, sem o querer e sem o saber quem me
ensinou a compreender essa linguagem.
Achars neste livro uma histria simples; simples quanto pode ser.
 um corao de me como o teu. A diferena est em que a Providncia o
colocou o mais baixo que era possvel na escala social, para que o amor
estreme e a abnegao sublime o elevassem to alto, que ante ele se
curvassem a virtude e a inteligncia; isto , quanto se apura de melhor na
lia humana.
4
A outra que no a ti causaria reparo que eu fosse procurar a maternidade
entre a ignorncia e a rudeza do cativeiro, podendo encontr-la nas salas
trajando sedas. Mas sentes que se h diamante inaltervel  o corao
materno, que mais brilha quanto mais espessa  a treva. Rainha ou
escrava, a me  sempre me.
Tu me deste a vida e a imaginao ardente que faz que eu me veja tantas
vezes viver em ti, como vives em mim; embora mil circunstncias tenham
modificado a obra primitiva. Me deste o corao que o mundo no gastou,
no; mas cerrou-o tanto e to forte, que s, como agora, no silncio da
viglia, na solido da noite, posso abri-lo e vaz-lo nestas pginas que te
envio.
Recebe, pois, Me, do filho a quem deste tanto, esta pequena parcela da
alma que bafejaste.
J. DE ALENCAR
Rio de Janeiro, 1859
PERSONAGENS
DR. LIMA
JORGE
GOMES
PEIXOTO
VICENTE
ELISA
JOANA
A cena  no Rio de Janeiro
A poca 1855.
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ATO PRIMEIRO
Em casa de GOMES. Sala de visitas.
CENA PRIMEIRA
ELISA e GOMES
GOMES - J ests cosendo, minha filha?
ELISA - Acordei to cedo... No tinha que fazer.
GOMES - Por que me ocultas o teu generoso sacrifcio? Cuidas que no
adivinhei?
ELISA - O que, meu pai?... Que fiz eu?...
GOMES - So as tuas costuras que tm suprido esta semana as nossas
despesas. Conheceste que eu no tinha dinheiro para os gastos da casa e
no me pediste... trabalhaste!
ELISA - No era a minha obrigao, meu pai?
GOMES - Oh! E preciso que isto tenha um termo!
ELISA - Tambm hoje  3 do ms... Vm. receber o seu ordenado.
GOMES - Meu ordenado?... J o recebi.
ELISA - Ah! Precisou dele para pagar a casa?
GOMES - Depois que morreu tua me, Elisa, tenho sofrido muito. Alm
dessa perda irreparvel, as despesas da molstia me atrasaram de modo,
que no sei quando poderei pagar as dvidas que pesam sobre mim.
ELISA - E so muitas?
GOMES - Nem eu sei... J perdi a cabea! Mas isto vai acabar... No 
possvel viver assim.
ELISA - Que diz, meu pai!
GOMES - Perdoa, Elisa. Foi um grito de desespero... s vezes, confesso-te,
tenho medo de enlouquecer! At logo.
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CENA II
ELISA e JOANA
JOANA - Bom dia, iai.
ELISA - Adeus, Joana.
JOANA - Iai est boa?
ELISA - Boa, obrigada.
JOANA - Sr. Gomes j foi para a repartio...
ELISA - Saiu agora mesmo.
JOANA - Encontrei ele na escada. Hoje no  dia de lio de nhonh Jorge?
ELISA - Segunda-feira.... , e ainda nem tive tempo de passar os olhos por
ela.
JOANA - Ento como h de ser?
ELISA - Estou acabando esta costura. J vou estudar.
JOANA - Pois enquanto iai cose, eu vou arrumando a sala: pode vir gente.
ELISA - Mas, Joana... Teu senhor no h de gostar disto!
JOANA - De que, iai?
ELISA - Tu nos serves, como se fosses nossa escrava. Todas as manhs
vens arranjar-nos a casa. Varres tudo, espanas os trastes, lavas a loua e
at cozinhas o nosso jantar.
JOANA - Ora, iai! que me custa a fazer isso?... Nhonh sai muito cedinho,
logo s 7 horas; eu endireito tudo l por cima, num momento, porque
tambm tem pouco que fazer; e depois venho ajudar a iai que se mata
com tanto trabalho.
ELISA - E o Sr. Jorge sabe disto?
JOANA - Que tem que saiba?... No  nada de mal!
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ELISA - Muitos senhores no gostam que seus escravos sirvam a pessoas
estranhas.
JOANA - Iai no  nenhuma pessoa estranha... Depois, Vm. no conhece
meu nhonh? No sabe como ele  bom?...
ELISA - Oh! sei!... H um ano que  nosso vizinho, e nesse pouco tempo
quanto lhe devemos!
JOANA - Mas iai  uma moa bonita!... E eu que sou sua mulata velha...
desde que nhonh Jorge nasceu que o sirvo, e nunca brigou comigo! Se ele
no sabe ralhar... Olhe, iai! Todas as festas me d um vestido bonito... E
no d mais porque  pobre!
ELISA - Foste tu que o criaste?
JOANA - Foi, iai. Nunca mamou outro leite seno o meu...
ELISA - E por que ele no te chama - mame Joana?
JOANA - Mame!... No diga isto, iai!
ELISA - De que te espantas? Uma coisa to natural!
JOANA - Nhonh no deve me chamar assim!... Eu sou escrava, e ele  meu
senhor.
ELISA - Mas  teu filho de leite.
JOANA - Meu filho morreu!
ELISA - Ah! Agora compreendo!... Esse nome de me te lembra a perda que
sofreste!... Perdoa, Joana.
JOANA - No tem de que, iai. Mas Joana lhe pede... Se no quer ver ela
triste, no fale mais nisto.
ELISA - Eu te prometo.
JOANA - Obrigada, iai. (Pausa.)
ELISA - Devem ser perto de nove horas... O Sr. Jorge no tarda.
JOANA -  mesmo!... Ele que vem sempre  hora certa.
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ELISA - Nem tenho vontade de estudar.
JOANA - Esto batendo.
CENA III
ELISA, JOANA e PFIXOTO
PEIXOTO - Viva, minha senhora! O Sr. Gomes?
ELISA - H pouco saiu.
PEIXOTO - J saiu! To cedo!... Ainda no so nove horas.
JOANA - Meu senhor, ele teve que fazer.
PEIXOTO - Nem de propsito! Sempre que o procuro, o Sr. Gomes no est
em casa.
ELISA - O senhor no quer sentar-se?
PEIXOTO - Obrigado; tenho pressa.
ELISA - Por que no o procura na repartio?
PEIXOTO - No estou para isso. Queria dizer-lhe que o Peixoto aqui veio e
voltar dentro de meia hora.
ELISA - Sim, senhor.
PEIXOTO - Sem mais!
CENA IV
JOANA e ELISA
JOANA - Cruzes!... Que homem grosseiro, minha Virgem Santssima!... Um
senhor assim era um purgatrio.
ELISA - Coitado! A culpa no  dele!
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JOANA - De quem  ento?
ELISA - Dos pais, que no lhe souberam dar educao.
JOANA - Que bom corao tem iai!... Desculpa tudo.
ELISA - Para que me desculpem tambm os meus defeitos, Joana.
JOANA -  o que iai no tem. Oh! Joana sabe conhecer gente! E ento iai
que est mesmo mostrando o que , nesse rostinho de prata!
ELISA - Deixa-te disso, Joana.
JOANA - Ah! se iai soubesse como eu lhe quero bem!...
ELISA - Assim te pudesse eu agradecer como desejava!
JOANA - Inda mais, iai?
ELISA - Ests brincando!... Nunca te dei nada.
JOANA - Ento iai!... Cuida que  pouco ver meu nhonh feliz?
ELISA - Joana!...
JOANA - No se zangue, no, iai, com sua mulata velha.
ELISA - Para que falas dessas coisas? No gosto.
JOANA - Est bom! Eu calo a boca. Ento ele no merece?
ELISA - Merece muito mais; porm...
JOANA - Ora, iai!... No disfarce!...
ELISA - Outra vez?
JOANA - Eu s peo uma coisa. Nosso Senhor no me mate sem que eu
veja isso. H de ser uma festa!..
ELISA - Queres que eu me agaste deveras, hein?
JOANA - No, iai, no! Mas que noivo bonito, e a noiva, hi!... Feitinhos um
para o outro!
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ELISA - Eu te peo, Joana...
JOANA - Nesse dia... Olhe, iai! Hei de pr meu cabeo novo, como as
mulatinhas da Bahia... Que pensa! No faa pouco na sua escrava, iai!
Joana tambm j foi moa... sabia riar o pixaim e bater com o taco da
chinelinha na calada; s - taco, taco, tataco! Oh! hei de me lembrar do
meu tempo... Se eu j estou chorando de contente!... E meu nhonh como
no h de ficar alegre!
ELISA - No gosto destas graas, j te disse.
JOANA - Que mal faz?  uma coisa que h de acontecer.
ELISA - Ests bem livre!
JOANA - Se iai no pagasse a meu nhonh todo o bem que lhe quer...
ELISA - Que farias?
JOANA - Eu, iai?... Nada! Que pode fazer uma escrava?... Mas iai era
ingrata!
ELISA Pois serei.
JOANA - Iai jura?... No  capaz!... Nem que esse corao no estivesse a
saltando!
ELISA - Se continuas... Vou-me embora! (Batem.)
JOANA - Querem ver que  nhonh!
ELISA - Bico!... Ouviste?
JOANA - Joana sabe guardar um segredo, iai.
CENA V
As mesmas e JORGE
JORGE - Como passou, D. Elisa?... Ah! Joana est lhe fazendo companhia!
ELISA - Veio conversar comigo.
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JORGE - Quando precise de mandar por ela fazer alguma coisa, no tenha
acanhamento, D. Elisa.
ELISA - J lhe sou to obrigada, Sr. Jorge!
JOANA - Eu no lhe disse, iai?
JORGE - O qu?
JOANA - No v, nhonh, que estes dias, desde que o escravo do Sr. Gomes
foi doente para a Misericrdia, eu venho fazer algum servio, pouco...
JORGE - Tu s sempre boa, Joana!
JOANA - No digas isso, nhonh!
JORGE - Digo, sim! - D. Elisa, creio que minha me, a quem no conheci,
no me teria mais amor do que esta segunda me, que me criou.
JOANA - H gente, nhonh! Isso so modos de tratar sua escrava.
ELISA - O Sr. tem razo, Sr. Jorge.
JOANA - No tem! No tem!
ELISA - Basta ouvi-la falar do senhor.
JORGE - Ah! Ela falou-lhe de mim?... Que disse?...
JOANA - Nada, nhonh.
ELISA - Em outras palavras, o que o senhor acaba de repetir.
JOANA - Iai... Eu disse que queria bem a meu senhor, como uma escrava
pode querer... s!
JORGE - Como uma escrava!... Sentes ser cativa, no ? JOANA - Eu!...
No, nhonh! Joana  mais feliz em servir seu senhor, do que se estivesse
forra.
JORGE - Bem sabes! Hoje  o dia de meus anos. Tenho um presente para ti.
JOANA - Nhonh j me deu um este ms.
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JORGE - No faz mal. Pudesse eu dar-te quantos desejo. - Vamos  nossa
lio, D. Elisa?
ELISA - Quando o senhor quiser.
JOANA - E eu vou cuidar da minha cozinha.
CENA VI
JORGE e ELISA
JORGE - Acho-a triste hoje.
ELISA -  engano seu. Nunca fui alegre.
JORGE - Perdo! Quando a conheci, a senhora tinha mais vivacidade do que
tem hoje. Tambm no se diverte, no passeia.
ELISA - Sou pouco amiga de passear.
JORGE - Mas  necessrio ter uma distrao.
ELISA - Tinha uma de que muito gostava.
JORGE - Qual?
ELISA - A msica, mas...
JORGE - Mas tambm enfastia. No ?
ELISA - A mim, nunca.
JORGE - Pois est em suas mos cultiv-la.
ELISA - Se estivesse!...
JORGE - No a compreendo.
ELISA - Escute, Sr. Jorge. H dias que tenciono dizer-lhe... porm falta-me
o nimo.
JORGE - O qu?... Diga, D. Elisa.
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ELISA - No posso continuar com as lies.
JORGE - Ah!... Tem outro mestre?
ELISA - No seja injusto! Que melhor mestre podia achar do que O senhor?
Eu  que no quero mais estudar.
JORGE - Por que, minha senhora?
ELISA - No lhe posso dizer.
JORGE - Desculpe, se cometi uma indiscrio.
ELISA - Nenhuma... E demais,  preciso que o senhor saiba... Meu pai no
pode... pagar-lhe...
JORGE - A senhora me ofende, D. Elisa!... Exigi alguma coisa?
ELISA - Oh! no!... E  por isso que lho disse... J lhe devemos seis meses.
JORGE - No fale nisto! Nunca foi minha inteno receber paga de to
pequeno servio. Ao contrrio, tinha-me por feliz em poder prest-lo.
ELISA - Mas eu  que no devo.
JORGE - Por que me recusaria isto? Assim, fique tranqila. Continuaremos
com as nossas lies.
ELISA - Como?... No tenho piano.
JORGE - E este?
ELISA - Meu pai quer vend-lo... Precisa...
JORGE -  s esse o motivo?... Eu lhe emprestarei o meu. Nunca toco.
ELISA - Ainda quando aceitasse, o que no devia, o seu delicado
oferecimento, Sr. Jorge, era impossvel continuar.
JORGE - Entendo D. Elisa. A senhora procura um pretexto para despedirme;
e eu estou torturando-a com a minha insistncia.
ELISA - Sr. Jorge!...
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JORGE - Desculpe. Se tivesse percebido, h muito que me teria retirado.
ELISA - Meu Deus! No me obrigue a confessar-lhe tudo!
JORGE - Adeus, minha senhora!
ELISA - Mas, Sr. Jorge...
JORGE - Tenho a conscincia de que nunca lhe faltei ao respeito que devia...
ELISA - Pois bem... O senhor quer. Eu preciso trabalhar!... Preciso ganhar
para viver!
JORGE - A senhora, D. Elisa?
ELISA - Bem v que no tenho nem tempo, nem vontade para estudar!
JORGE - Perdoe-me! Estava to longe de suspeitar!
ELISA - Ainda supe que seja um pretexto?
JORGE - Esquea o que lhe disse.
ELISA - S me lembro do que lhe devemos. (Pausa.)
JORGE - Oua-me, D. Elisa, e sirvam-me as suas lgrimas de testemunhas
perante Deus. H muito tempo que trabalho para conseguir um posio
digna de lhe ser oferecida. Quer dar-me o direito de partilhar a sua sorte?...
Responda-me! Eu lhe suplico!
ELISA - No!... No posso responder-lhe!... Nem aceitar. JORGE - Porque 
pobre?... Tambm eu o sou! Seremos dois a lutar.
ELISA - Meu pai... lhe dir... Eu no!
JORGE - Era minha inteno falar-lhe; mas antes quero o seu
consentimento. Recusa-me?
ELISA - No sei!
JORGE - Elisa!...
ELISA - Fale!...
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JORGE - Obrigado, minha mulher!...
ELISA - No me chame assim!
JORGE - Esse ttulo me impe o dever de fazer a sua felicidade, e me d o
direito de velar sobre a sua existncia.
ELISA - Se meu pai no se opuser.
JORGE - Ainda quando ele se oponha, Elisa. No contrariaremos a sua
vontade, no esqueceremos os nossos deveres; mas a aliana pura de duas
almas que se compreendem tem a sua religio.
ELISA -  meu pai!
JORGE - Vem a propsito.
ELISA - Mas no lhe fale agora, no.
CENA VII
Os mesmos e GOMES
JORGE - Bom dia, Sr. Gomes!...
GOMES - Ah!... Como passou, Sr. Jorge?... Desculpe!... No tinha visto.
(Senta-se distante.)
JORGE - Permite que continuemos?
GOMES - Pois no!
JORGE - (a ELISA) - No quer dar a sua lio?
ELISA - (a meia voz) - No posso cantar agora!... No v como estou toda
trmula!
JORGE - Pois toque um pouco.
GOMES (sentindo a falta do relgio) - Ah!... Que horas so?... Deixei o meu
relgio a consertar.
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JORGE - Nove e vinte.
GOMES - J?... No chega!... Que martrio!...
ELISA - Que tem, meu pai?
GOMES - Nada! Deixa-me! Estou aflito!... Espero uma resposta.
ELISA - Vm. est to descorado!
GOMES -  o calor... O cansao, talvez! No te inquietes.
JORGE (a Elisa) - Seu pai est incomodado. Naturalmente deseja ficar s.
At logo.
ELISA - Sim! At logo.
JORGE - No se esquea que me deu o direito de viver para a sua felicidade.
ELISA  coisa que se esquea nunca?
JORGE - Se houver alguma novidade, mande-me chamar.
ELISA - Imediatamente.
JORGE - Sr. Gomes!...
GOMES - J vai?
JORGE - Quando poderei falar-lhe hoje, que menos o incomode?
GOMES -  tarde... ou  noite.
JORGE - Eu passarei  noite. (Volta) Uma carta que acabam de entregar.
GOMES - Ah!...
CENA VIII
GOMES e ELISA
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GOMES (lendo) - "Sinto muito... porm... as minhas circunstncias..."  o
que todos respondem!... Infames! No se lembram que se hoje lhes peo as
migalhas, j lhes dei a abastana.
ELISA - Que diz essa carta que o agonia tanto, meu pai? GOMES - O que h
de ser, minha filha?!... Mais um ingrato a quem estendo a mo e que me
repele com o p.
ELISA - No lhes pea nada!... Olhe: o nosso trabalho bastar para
vivermos! Guarde o seu ordenado para pagar casa e vestirmos. Eu no
preciso de nada. Das minhas costuras tirarei o necessrio para os gastos
dirios.
GOMES - No te iludas, Elisa! Podes te matar, mas no fars impossveis.
ELISA - H de ver.
CENA IX
Os mesmos e VICENTE
VICENTE - O Sr. Gomes, empregado pblico...
GOMES - Que deseja?
VICENTE -  V. Sa.?
GOMES - Um seu criado.
VICENTE - Ento permita... Cito-o pela petio supra e seu despacho, do
teor seguinte: - "Ilmo. Sr. Dr. Juiz Municipal da 3a Vara. Diz..."
GOMES - Peo-lhe que me dispense dessa formalidade.
VICENTE - Prescinde da leitura, neste caso?
GOMES - Sei de que se trata.  do meu senhorio?
VICENTE - Justamente! Mandado de despejo, dentro de 24 horas, por no
pagamento de aluguis.
ELISA - Meu Deus!
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GOMES - Estou ciente, senhor.
ELISA - Mas ento, meu pai?
GOMES - Tudo nos persegue, minha filha.
VICENTE - V. Sa. tem  mo papel e tinta para passar a contra-f... seno
dou um pulo  venda defronte.
ELISA - Aqui tem, senhor.
VICENTE - Qualquer pena serve.
ELISA - O senhor no poder fazer alguma coisa a favor de meu pai?
VICENTE - Sou suspeito, Sra. Dona... Oficial do juzo!
ELIS - Ento amanh vm deitar-nos fora de casa?
VICENTE - Qual!... O senhor seu pai no tem advogado?  pedir vista...
embargos... agravo... L o doutor sabe bem disso! Tem chicana para um
ano!
ELISA - Ouve, meu pai? - Ainda h remdio.
GOMES - Se eu tivesse dinheiro para pagar a advogados... Mas nesse caso
pagaria antes ao meu credor, cuja dvida  justa.
VICENTE -  V. Sa. o primeiro ru que o confessa!
CENA X
Os mesmos e PEIXOTO
PEIXOTO - Com licena!
GOMES - Quem ?
ELISA - Ah!  o senhor que h pouco o procurou, meu pai.
PEIXOTO - Finalmente achei-o em casa.
GOMES - Sr. Peixoto, no me nego a pessoa alguma.
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PEIXOTO - No digo o contrrio mas  difcil de o encontrar.
VICENTE - V. Sa. paga a contra-f?
ELISA - Quanto ?
GOMES - No tenho com que pagar, senhor.
VICENTE - Bem.  s para declarar.
PEIXOTO - Hum!... J lhe anda esta gente por casa... Mau sinal!
VICENTE - Viva, Sr. Peixoto! (A GOMES) Aqui tem!
GOMES - No preciso deste papel.
VICENTE - Em todo o caso a fica. As ordens! Queira desculpar!
PEIXOTO (a meia voz) - Que foi isso?
VICENTE (idem) - Despejo!
PEIXOTO - Mau!
GOMES - Elisa, vai para dentro. Deixa-me conversar com o senhor.
CENA XI
GOMES e PEIXOTO
PEIXOTO - Sabe o que me traz aqui?
GOMES - Sim, senhor. No lhe posso pagar.
PEIXOTO - Essa  boa! Por qu?
GOMES - Porque no tenho dinheiro.
PEIXOTO - Veremos.
GOMES - Enquanto conservei uma esperana, pedi-lhe que tivesse
pacincia. Hoje nada espero; nada peo.
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PEIXOTO - Que fez do ordenado?
GOMES - Descontei-o seis meses adiantados para viver.
PEIXOTO - A sua moblia?
GOMES - J no  minha. A pessoa que a comprou deixou-me alugada; e
como no lhe tenho pago os aluguis, vem busc-la amanh.
PEIXOTO - E os escravos que possua?
GOMES - O ltimo saiu desta casa sob o pretexto de ir para a Misericrdia, a
fim de que minha filha ignorasse... Foi penhorado!
PEIXOTO - Mas h pouco, vi aqui uma mulata.
GOMES - Era talvez a escrava do meu vizinho do segundo andar.
PEIXOTO - Ah!  verdade. Conheo-a! Do Sr. Jorge?
GOMES - Sim, senhor.
PEIXOTO - Assim, nada lhe resta?
GOMES - Nada absolutamente! Estou na misria!
PEIXOTO Pois no sei como h de ser. No estou disposto a perder o meu
dinheiro.
GOMES - Se eu pudesse vender-me para pagar-lhe, creia que no hesitaria.
No posso. Que hei de fazer?
PEIXOTO - O senhor no sabe?
GOMES - Sei!...
PEIXOTO -  arranjar dinheiro, se no quer ir parar  cadeia.
GOMES - O senhor insulta-me!
PEIXOTO - Se acha que isto  um insulto, nesse caso  a lei, no sou eu
quem o insulta.
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GOMES - Cometi algum crime?...  culpa minha se no tenho com que
pagar-lhe?
PEIXOTO - Se fosse s isso!
GOMES - Explique-se!
PEIXOTO -  muito simples. O senhor negociou comigo uma letra de
quinhentos mil-ris. Tinha o seu aceite; mas estava sacada e endossada
pelo Sr. Francisco de Faria, negociante desta praa.
GOMES - O senhor deu-me por ela quatrocentos mil-ris, dos quais ainda
tive de pagar cinqenta ao Sr. Faria.
PEIXOTO - Esta no  a questo. O saque e o endosso so falsos.
GOMES - Falsos!...
PEIXOTO - Faria nunca sacou letras.
GOMES - Mas ento quem era a pessoa com quem tratei?
PEIXOTO -  coisa que no me interessa. O senhor responder  polcia.
GOMES - A policia?... Eu!
PEIXOTO - Est bem visto!... A letra foi negociada com o senhor. Tenho
testemunhas. Que me importa essa pessoa?
GOMES - Mas, senhor, no  possvel!... No se condena assim um homem
que no tem notas na sua vida.
PEIXOTO - Sr. Gomes, acabemos com isto!... No lhe quero fazer mal;
porm, se s cinco horas da tarde o senhor no tiver o dinheiro para pagarme,
s seis apresento a letra na polcia.
GOMES - D-me tempo ao menos para procurar o homem com quem tratei.
PEIXOTO - E o senhor tratou com algum?
GOMES - Infame!... Duvida de minha palavra!
PEIXOTO - Ah! Quer brigar? No estou disposto. At s cinco horas.
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GOMES - Meu Deus! Condenado como um falsrio!... No! J resisti por
muito tempo!
CENA XII
GOMES e ELISA
ELISA - Meu pai!...
GOMES - Tu ouviste, minha filha?
ELISA - Ouvi tudo.
GOMES - Pois ento ouve o resto.
ELISA - Sossegue primeiro.
GOMES - No h sossego nestes transes. Acabas de saber que estamos na
misria; nada temos, nada devemos esperar. Mas isto no era bastante; a
vem a desonra coroar a misria.
ELISA -- Mas o que disse aquele homem  uma mentira, no ?
GOMES - Tu duvidaste um momento da probidade de teu pai?
ELISA - Oh! No, no!
GOMES - Se eu quisesse, j no digo roubar, mas transigir com a minha
conscincia, os que agora nos desprezam, a estariam ainda nos
importunando com a sua amizade fingida e hipcrita.
ELISA - No se defenda, meu pai. Eu creio na sua honra, como creio em
Deus. Se lho perguntei  porque desejava ouvir de sua boca o desmentido
de semelhante calnia. (Pausa.)
GOMES - Elisa, minha filha!.. Este ltimo golpe  mais forte que minha
razo. Muitas vezes j a minha coragem vacilou encarando a misria: um
projeto louco me passou pelo esprito, e esteve bem prestes a realizar-se.
Resisti, lembrando-me de ti.  vergonha,  infmia, minha filha, no
posso... no sei resistir!
ELISA - No pense nisto, meu pai.
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GOMES - Quando no se pode viver honrado, morre-se.
ELISA - Quer-se matar!
GOMES - Isto  vida?
ELISA - Meu Deus!... Por piedade!
GOMES -  necessrio!
ELISA - E eu, e sua filha? Deixa-a ao desamparo?
GOMES - Preferes que a arraste  vergonha?... No sentes que vais perder
teu pai?... Escolhe! V-lo infame nas gals, ou chor-lo morto, porm
honrado.
ELISA - Mas ainda pode salvar-se!... No h de ser condenado, no!
GOM ES - Refleti, Elisa. Que defesa tenho eu?... A minha palavra. E isto
basta? Sem dinheiro, sem amigos?... S me resta uma esperana; e  que
esse homem no cumpra o que disse. Mas essa... no acredito nela.
ELISA - Por qu?... Esse homem deve ter um corao! Eu lhe suplicarei de
joelhos.
GOMES - Tu sabes se te quero, Elisa, e com que extremos te amo. A nica
dor que levo desta vida  deixar-te!... Uma menina de 18 anos, sem pai,
sem me, ao desamparo,  um anjo perdido neste mundo torpe. Toda a sua
virtude no basta s vezes para defend-la. Sucumbe  necessidade
implacvel..
ELISA - E quer me abandonar!
GOMES - Sou eu que te abandono, Elisa, ou  a fatalidade que me arranca
de teus braos?
ELISA - Deus se h de condoer de ns!
GOMES - Se te sentes com fora de lutar, minha filha, talvez a felicidade te
depare um homem que te ame, e proteja a tua orfandade.
ELISA - E por que no nos proteger a ambos?
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GOMES - Eu j no preciso seno do perdo do Senhor e do teu. - Se,
porm, te sentes fraca... No te aconselho... No digo que o faas... Segue
o impulso de tua alma...
ELISA - Acabe, meu pai!
GOMES - O que ficar deste vidro...
ELISA - Ah!
GOMES -  a nica herana de teu pai, Elisa.
ELISA - Oh! Sim! Morremos juntos!
GOMES - No! Foi uma loucura!... Esquece o que te disse! Tu ainda podes
ser feliz, minha filha!...
ATO SEGUNDO
Em casa de JORGE. Sala simples, mas elegante.
CENA PRIMEIRA
JOANA e VICENTE
VICENTE - Como vai isto por c?
JOANA - Oh! Bilro!... Vamos indo, como Deus  servido!
VICENTE - H sade e patacos,  o que se quer.
JOANA - Sade no falta, no, Bilro! No mais vai-se vivendo, como se pode.
VICENTE - Olhe, Sra. Joana... H muito que estou para lhe pedir uma coisa.
JOANA - Sra. Joana!... Ests doido, Bilro?
VICENTE - No, mas  que... Sim... Bem v que tenho hoje uma posio...
E este modo de chamar a gente de Bilro...
JOANA (rindo) - Ah! ah! ah!... Ento porque s pedestre, ou meirinho... No
sei o qu!
25
VICENTE - Menos isso!... Oficial de justia!
JOANA - Pois que seja... Oficial da justia, ou da injustia... Porque s isto,
julgas que ficas desonrado se eu te chamar de Bilro?... Ora, no vejam s
este meu senhor! Que figuro!... V. Sa. faz obsquio... ou V. Exa.?... Queira
ter a bondade... Por quem ... Sr. Vicente...
VICENTE - Romo... Romo...
JOANA - Sr. Vicente Romo. Queira desculpar!... sem mais aquela.
VICENTE - Est zombando.
JOANA - ~ No  assim que deve trat-lo?
VICENTE - Toma o recado na escada... Eu por mim no me importava; mas
falam.
JOANA - Pois olha! C comigo est se ninando!... Eu te conheci assim
tamaninho, j era rapariga, mucama de minha senhora moa, que Deus
tem, e foi sempre Bilro para l, tia Joana para c. Se quiseres h de ser o
mesmo... seno, passar bem. Ningum h de morrer por isso.
VICENTE - Mas, Joana...
JOANA - Tia Joana!
VICENTE - Est bom, para fazer-lhe a vontade... Tia Joana! No era melhor
que a gente se tratasse como os outros?...
JOANA - No sei se  melhor, se no... Quando te vir hei de chimpar-te com
o Bilro na venta.
VICENTE - No tem graa nenhuma.
JOANA - Se te parecer, no responde:  o mesmo.
VICENTE - Em teima ningum lhe ganha!... No v que  preciso a gente
dar-se a respeito.
JOANA - D-te a respeito l com as outras. Comigo ests bem aviado.
VICENTE - Pois  isto que eu quero! No me entendeu... Diante dos outros a
senhora... a tia Joana que lhe custa me chamar de Vicente?
26
JOANA - Diante dos outros?... Pois sim! Mas olha que  Vicente s!
VICENTE - Vicente Romo...  mais cheio.
JOANA - Uma figa!... Nem Romo, nem senhor! Vicente.
VICENTE - Enfim! Era melhor o nome todo... No quer! Que se lhe h de
fazer!
JOANA - Ento no perguntas por nhonh Jorge?
VICENTE - Ia perguntar; mas Vm....
JOANA - Vm.... Hein... Bilro...
VICENTE - Voc me atrapalhou, tia Joana. Como est ele, o Sr. Jorge? Est
bom?
JOANA - Bom e crescido que faz gosto... Se tu o vires!
VICENTE - No h quinze dias que estive com ele.
JOANA - Pois faz sua diferena!. .. Todos os dias parece que fica mais alto e
mais srio... Eu acho ele to bonito, meu Deus!
VICENTE - Pudera no! Voc o criou!
JOANA - E tu no achas?
VICENTE- Eu no! E  preciso que diga.
JOANA - J lhe saiu todo o buo.
VICENTE - Tambm ele j anda rastejando pelos vinte e um.
JOANA - Completou hoje, Bilro.
VICENTE -  verdade. - Ora tia Joana! J estamos ficando velhos. Inda me
parece. que foi outro dia que voc dava de mamar a ele.
JOANA - Como me lembra!... Eu tinha dezessete anos, e tu eras um pirralho
de oito. Vinhas bulir com ele no meu colo; e como eras muito travesso, ns
te comeamos a chamar de Bilro. Nunca estavas quieto!
27
VICENTE - E aquela vez que um sujeito fez-me por fora levar-lhe um
recado... Quando a gente  criana faz cada uma!
JOANA - Doeu-te o puxo de orelha que te dei?
VICENTE - Oh! se doeu!... Tambm nunca mais!
JOANA - E perdias teu tempo!
VICENTE - L isso eu sempre disse... Nunca houve mulatinha que se desse
mais a respeito do que tia Joana. Pois em casa punham a boca em todos;
mas dela no tinham que mexericar.
JOANA - No fala mais nisso, Bilro. A gente tem vontade de chorar.
VICENTE -  mesmo, tia Joana. Bom tempo! Sr. doutor s fazia ralhar.
Tirante disso, era bom amo.
JOANA - Tens tido notcias dele?
VICENTE - Depois que foi viajar, nunca mais soube por onde anda.
JOANA - E a comadre Rosa que ele vendeu a um homem da Rua da
Alfndega?
VICENTE - Essa morreu... O Andr est cocheiro na praa.
JOANA - Cada um para sua banda.
VICENTE - Vou indo tambm para a minha. Adeus, tia Joana.
JOANA - Agora at quando?
VICENTE - No sei! Hoje como tive que fazer por aqui, ento disse c com
os meus botes: - Deixa-me ver a tia Joana. - J vi... Esto batendo.
JOANA - V quem .
VICENTE - Pode entrar.
CENA II
28
Os mesmos e DR. LIMA
DR. LIMA - Ainda se lembram aqui do amigo velho?
JOANA - Ah! Meu senhor Dr. Lima. H que anos!...
VICENTE - Sr. doutor!...
DR. LIMA - Esqueceste que parti para Europa.
JOANA - No esqueci, no... meu senhor. Ainda h pouco estava falando
nisso.
DR. LIMA - Cheguei hoje pelo paquete. Acabo de desembarcar. Que de
Jorge?
JOANA - Saiu. Que alegria ele vai ter!... Mas como meu senhor acertou com
a casa?
DR. LIMA - Custou-me!... J andei por ai  matroca. Na Rua do Conde  que
me ensinaram.
VICENTE - O vizinho de defronte?
DR. LIMA - Justamente! Mas eu estou reconhecendo esta figura...
JOANA - O ciganinho, pajem de meu senhor...
DR. LIMA - Ah! O grande Bilro!
VICENTE - Vicente Romo, Sr. doutor.
DR. LIMA - Como vais?... Que fazes?... Ests mais bem comportado?
JOANA -  oficial de justia.
DR. LIMA - Escolheste um bom emprego, Bilro.
VICENTE - Vicente Romo, Sr. doutor. Mas ento V. Sa. acha?
DR. LIMA - O que, homem?...
VICENTE - Bom o meu emprego?
DR. LIMA - Decerto! Precisavas viver bem com a justia.
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VICENTE - Peo vista para embargos, Sr. doutor; no tenho culpas no
cartrio.
DR. LIMA - Bem mostras que s do ofcio!
VICENTE, ( Joana.) -  preciso perder esse mau costume de chamar a
gente de ciganinho. Ouviu?!
JOANA - Ai!... Comeas outra vez com as tuas empfias. VICENTE - Que
embirrncia!...
DR. LIMA - Que  isso l? Assim  que festejam a minha chegada?
JOANA -  Bilro que...
VICENTE - No  nada, Sr. doutor; V. Sa. me d as suas ordens.
DR. LIMA - Vai me ver. Estou no Hotel da Europa.
VICENTE - Obrigado, Sr. doutor. At mais ver, tia Joana.
CENA III
DR. LIMA e JOANA
JOANA - Meu senhor no quer descansar?...
DR. LIMA - Recosto-me aqui mesmo, neste sof.
JOANA - J almoou, meu senhor? A tem caf e leite.
DR. LIMA - Ainda conservo os meus antigos hbitos. s oito horas j estava
almoado.
JOANA - Quem sabe se meu senhor no quer tomar o seu banho?
DR. LIMA - No! Vem c. Senta-te a.
JOANA - Eu converso mesmo de p com meu senhor.
DR. LIMA - Como vai teu filho?... J est um homem?
JOANA - Meu senhor!... Eu lhe peo de joelhos... No diga este nome!
30
DR. LIMA - Pelo que vejo o mistrio dura ainda!
JOANA - E h de durar sempre! Meu senhor me prometeu.
DR. LIMA - Prometi.
JOANA - Meu senhor jurou!
DR. LIMA -  verdade! Mas julgava que na minha ausncia tudo se havia de
se revelar.
JOANA - Ele no sabe nada, e eu peo todos os dias a Deus que no lhe
deixe nem suspeitar.
DR. LIMA - Assim tu ainda passas por sua escrava?
JOANA - No passo, no! Sou escrava dele.
DR. LIMA - Mas Joana! Isto no  possvel!
JOANA - Meu senhor... Eu j lhe disse!... E no cuide que por ter esta cor
no hei de cumprir... No dia em que ele souber que eu sou... que eu sou...
Nesse dia Joana vai rezar ao cu por seu nhonh.
DR. LIMA - E por que razo hs de fazer uma tal loucura?
JOANA - Por qu?... Desde que nasceu ainda est para ser a primeira vez
que se zangue comigo. E Vm. quer que se envergonhe... Que me aborrea
talvez!... Meu Deus! Matai-me antes que eu veja essa desgraa!
DR. LIMA - s tu a culpada?
JOANA - No sei, meu senhor, no sei. s vezes penso... Quando fazem
vinte e um anos eu senti o primeiro movimento dele... de meu...
DR. LIMA - De teu filho. Fala! Que receio  esse?... Estamos ss.
JOANA - Vm. no sabe que medo tenho de dizer este nome!... At  noite
quando rezo por ele baixinho... no me atrevo... Ele pode ouvir... Eu posso
me acostumar...
DR. LIMA - Mas dizias?
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JOANA - Ah! Quando senti o primeiro movimento que ele fez no meu seio,
tive uma alegria grande, como nunca pensei que uma escrava pudesse ter.
Depois uma dor que s tornarei a ter se ele souber. Pois meu filho havia de
ser escravo como eu? Eu havia de lhe dar a vida para que um dia quisesse
mal  sua me? Deu-me vontade de morrer para que ele no nascesse...
Mas isso era possvel?... No, Joana devia viver!
DR. LIMA - Foi ento que Soares te comprou...
JOANA - Ele me queria tanto bem! Deu por mim tudo quanto tinha... Dois
contos de ris! Eu fui para sua casa. A meu nhonh nasceu, e foi logo
batizado como filho dele, sem que ningum soubesse quem era sua me.
DR. LIMA - Desgraadamente morreu poucos dias depois... Se eu soubesse
ento!...
JOANA - Mas meu senhor no sabia nada. Fui eu que lhe confessei...
DR. LIMA - Porque j tinha suspeitado...
JOANA - E por isso s. Vm. era capaz de afirmar? No! Quem lhe contou fui
eu, com a condio de no dizer nunca!...
DR. LIMA - Pois bem, Joana! No direi uma palavra. Continuars a ser
escrava de teu filho. Ser para ele a dor mais cruel quando souber...
JOANA - Nunca!... Quem vai lhe dizer?... Alm de Vm. e de mim, s Deus
sabe este segredo. Enquanto meu senhor estava fora eu vivia descansada...
DR. LIMA - E tinhas razo... Presente, vendo-te ao lado de Jorge, no
respondo por mim.
JOANA Meu senhor, Vm. teve sua me... Lembre-se que dor a pobre havia
de sentir se seu filho tivesse vergonha dela!... No o faa desgraado! E por
causa de quem?... De mim que morreria por ele.
DR. LIMA - Bem; prometo-lhe que hei de ter coragem! Virei raras vezes
aqui. Evitarei o mais que puder... com receio de me trair.
JOANA -  melhor. At Vm. se habituar.
DR. LIMA - Nunca me habituarei!.... Tu no sabes como eu te admiro,
Joana; e como di-me no corao ver esse martrio sublime a que te
condenas.
32
JOANA - Eu vivo to feliz, meu senhor!
DR. LIMA - Mas que necessidade tinhas de ser escrava ainda? No podias
estar forra?
JOANA - Eu, meu senhor?... Como?
DR. LIMA - Com o dinheiro que tiravas do teu trabalho, e gastavas na
educao de teu filho.
JOANA - Nunca pensei nisso, meu senhor!... Demais, forra, podiam-me
deitar fora de casa, e eu no estaria mais junto dele. A escrava no se
despede.
DR. LIMA - Mas... Estremeo s com esta idia!
JOANA - Qual, meu senhor?
DR. LIMA - Supe que... te vendiam.
JOANA - Joana morreria; porm ao menos deixaria a ele aquilo que
custasse... sempre era alguma coisa... Para um moo pobre!
DR. LIMA - E eu hei de estar condenado a ouvir Jorge agradecer-me a sua
educao que ele deve unicamente a ti; a chamar-me seu segundo pai,
ignorando que sua...
JOANA - Mais baixo!... No se zangue, meu senhor!
DR. LIMA - Sabes que mais! Vou-me embora. Voltarei logo para abraar
Jorge, e no pisarei mais aqui.  uma tortura!
JOANA - Adeus, meu senhor! No se agaste comigo.
DR. LIMA - No. Quem sabe se tu no tens razo!
JOANA - Deus d muita felicidade a meu senhor Dr. Lima.
(Abre a porta.)
CENA IV
33
Os mesmos e JORGE
JOANA - Ah!
DR. LIMA -  ele?
JOANA - Nhonh no conhece, no!... Sr. Dr. Lima!
DR. LIMA - Jorge!
JORGE - Ah! doutor! Quando chegou?
DR. LIMA - Hoje mesmo.  a minha primeira visita.
JORGE - E devia ser pelo bem que lhe queremos, eu e Joana. Venha sentarse.
DR. LIMA - Est um homem!
JOANA - No , meu senhor doutor?... E um moo bonito! Hi! Faz andar 
roda a cahecinha dessas moas todas.
JORGE - Se lhe der ouvidos, doutor,  um no acabar de elogios!... Mas h
cinco anos que est ausente!
JOANA - H de fazer pela Pscoa.
DR. LIMA -  verdade. Deixei-o quase criana... Tinha dezesseis anos.
Acabou os seus estudos naturalmente!
JORGE - Ainda no.
JOANA -  o melhor estudante. No sou eu que digo!... So os mestres
dele.
DR. LIMA - Sempre foi... Que profisso escolheu?
JORGE - Segui o seu conselho... Estudo medicina; estou no 5o ano.
DR. LIMA - E de fortuna... Como vamos?
JORGE - O necessrio. As minhas lies..
DR. LIMA - Ah! D lies? De qu?
34
JORGE - De msica e de francs.
DR. LIMA - Lembro-me que tinha muita disposio para o piano. Cultivou
essa arte?
JOANA - Toca que faz gosto!... Vm. h de ouvir.
DR. LIMA - Sem dvida. E quanto lhe rendem as lies?
JORGE - Uns cem mil-ris por ms.
DR. LIMA -  pouco.
JORGE - Fao tambm algumas tradues que deixam s vezes um
extraordinrio. Joana por seu lado ganha...
JOANA - Quase nada, nhonh! J estou velha. No coso mais de noite.
JORGE - Nem eu quero. Foi de passares as noites sobre costura que ias
perdendo a vista.
DR. LIMA - Faz bem em trat-la com amizade, Jorge.  uma boa...
JOANA - Sou uma escrava como as outras.
JORGE - s uma amiga como poucas se encontram.
JOANA - Ora, nhonh!...
JORGE - Sabe, doutor! Creio que foi Deus que o enviou a esta casa.
DR. LIMA - Por que razo, Jorge?
JORGE - Eu lhe digo... Vem c, Joana!... Mais perto!... Quero contar-te uma
histria.
JOANA - Mas... Eu vou dar uma vista d'olhos l dentro.
JORGE - Espera. (Toma-lhe a mo.)
JOANA - Que  isso, nhonh? J se viu... Que modos?
JORGE - Olhe, doutor! Estou no meio de minha famlia. Meu segundo pai,
minha segunda me! No conheci os outros.
35
DR. LIMA - Jorge, meu amigo!
JOANA - Para que falar nestas coisas num dia de se estar alegre... Meu
senhor doutor chegou... Nhonh faz anos.
DR. LIMA -  verdade!...  hoje 3 de fevereiro...
JORGE - Escolhi justamente este dia para pagar-te uma dvida. Quem foi
testemunha da dedicao, doutor, ver o reconhecimento.
JOANA - Nhonh, me d licena!
JORGE - Toma, Joana. Eu escrevi-a esta manh lembrando-me de minha
me.
DR. LIMA - Muito bem, Jorge. Deus o inspirou!
JOANA - Mas o qu... Que papel  este, nhonh?
DR. LIMA -  a tua carta de liberdade, Joana!
JOANA - No quero! No preciso!
JORGE - No  tua carta de liberdade, no, minha boa Joana; porque eu
nunca te considerei minha escrava.  apenas um ttulo para que no te
envergonhes mais nunca da afeio que me tens.
JOANA - Mas eu no deixarei a meu nhonh?
JORGE - A menos que tu no o exijas.
JOANA - Eu!... Que lembrana!
DR. LIMA - No faz idia do quanto me comove esta cena.
JORGE - As nossas almas se compreendem, doutor. Guarda, Joana, este
papel...
JOANA - Por que nhonh mesmo no guarda?
JORGE - De modo algum. Ele te pertence, manda-o registrar em um
tabelio.
DR. LIMA -  prudente.
36
JORGE - H muito tempo, doutor, que tencionava realizar este pensamento.
Mas tinha tomado algum dinheiro com hipoteca...
DR. LIMA - Com hipoteca.!... Sobre Joana?
JOANA - Que mal fazia?
JORGE - Conheo que fui imprudente, mas a necessidade urgia.
DR. LIMA - No o censuro, Jorge! O senhor no sabia...
JORGE - O que, doutor?
DR. LIMA - No sabia... Quanto esses emprstimos so perigosos!...
JORGE - Felizmente j no sou devedor... Nem ao homem que me
emprestou... Nem  minha conscincia que me ordenava desse a Joana
essa pequena prova da estima que lhe tenho. Resta-me ainda uma divida...
Divida de amizade e gratido que nunca poderei pagar.
DR. LIMA - A ela!... Por certo que nunca!
JOANA - A meu senhor!... A mim no. (Batem.)
CENA V
Os mesmos e GOMES
JOANA - Sr. Gomes!
JORGE - Tenha a bondade de entrar.
GOMES - Desculpe se o incomodo, meu vizinho!
JORGE - Ao contrrio, d-me muito prazer... Por que no se senta?
DR. LIMA (a JOANA) - Agora podes ficar tranqila! Terei foras de calar-me.
JOANA - Meu senhor... No toque nisto... agora.
DR. LIMA - Que tem?... No nos ouvem.
JOANA - Fale mais baixo!... Pelo amor de Deus!
37
JORGE (a GOMES) - Hoje me pareceu incomodado?
GOMES - Estou bom!
JORGE - Mas ainda o acho plido.
GOMES - No  nada!
JORGE - Ainda bem! Quero apresentar-lhe a um amigo que chegou-nos hoje
de repente... Devo-lhe mais que a existncia, devo-lhe a educao.
GOMES - Como?... Perdo! estava distrado!... Que dizia?
JORGE - Que desejava apresentar-lhe um amigo.
GOMES - Ah! Com muito gosto.
JORGE - Dr. Lima!... O senhor estimar fazer o conhecimento de uma
pessoa que todos respeitam pela sua honradez... O Sr. Gomes... Empregado
pblico.
DR. LIMA - Estimo muito!... Um mdico pobre, sem clnica, que esteve cinco
anos fora do seu pas, de pouco presta, mas pode contar...
GOMES - Obrigado, Sr. doutor. (A JORGE) Porm eu desejava falar-lhe em
particular.
JORGE - Por que no disse?...
DR. LIMA - Neste caso eu me retiro.
GOMES - No  preciso! No! Eu voltarei depois.
JORGE - Para que ter esse trabalho?... O doutor pode entrar um momento.
DR. LIMA - Decerto! Vou ver a casa. Anda, Joana. Vem mostrar-me os teus
arranjos.
CENA VI
GOMES e JORGE
38
GOMES - No incomode seu amigo. Voltarei depois.
JORGE - Ora, Sr. Gomes, no  incmodo. Estou  sua disposio.
GOMES -  verdade que o negcio de que lhe pretendia falar  urgente...
mas...
JORGE - Pois ento, no h necessidade de adi-lo. GOMES - Talvez o
senhor estranhe... O passo  imprprio, eu conheo...
JORGE - Fale com franqueza.
GOMES - No! Temo abusar... Agradeo-lhe a sua ateno... Outra vez
conversaremos. Hoje mesmo... Logo mais.
JORGE - O Sr. Gomes tem alguma coisa que o inquieta; creia que se
estiver. nas minhas mos servi-lo...
GOMES -  engano seu!... No tenho nada.
JORGE - Talvez algum embarao... Sim! Isto no depende de ns... Pode
acontecer a qualquer... De repente precisamos de algum... dinheiro...
GOMES - Sr. Jorge! No vim pedir-lhe dinheiro emprestado! No  meu
costume.
JORGE - Perdo, Sr. Gomes! No tive inteno de ofend-lo. Estimo-o e
respeito-o muito...
GOMES - Fao justia s suas intenes... Mas creia... Se me visse reduzido
a essas circunstncias preferiria morrer de fome a tirar esmolas.
JORGE - A palavra  dura! Recorrer a um amigo no  mendigar.
GOMES - No; mas pedir quando no se pode e no se espera pagar... 
mais que mendigar....  abusar da confiana;  roubar. Bem v que no
seria capaz.
JORGE - Mas o Sr. Gomes no est nessas circunstncias.
GOMES - No devo tomar-lhe o tempo com os meus negcios. O objeto
sobre que desejava falar-lhe...  muito diferente.
JORGE - Pois eu o escuto.
39
GOMES - No! Preciso refletir ainda.
JORGE - Mas no poderei saber?...
GOMES -  escusado... Permita-me!
JORGE - Como quiser.
GOMES - Passe bem!
CENA VII
JORGE, DR. LIMA e JOANA
DR. LIMA - J foi o seu amigo?
JORGE - J, doutor.
DR. LIMA - Examinou-o bem?... Ele tem alguma coisa. No est no seu
estado normal.
JORGE - Assim me pareceu.
DR. LIMA - Aconselhe-lhe que se trate.
JORGE - Hei de procur-lo daqui a pouco.  nosso vizinho; mora no primeiro
andar... Julgo que tem sofrido desarranjos nos seus negcios.
JOANA - Iai D. Elisa me disse, nhonh, que ele sempre foi assim triste.
DR. ~ - Quem  iai D. Elisa?
JOANA -  a filha do Sr. Gomes.
DR. LIMA - Bonita?
JOANA Como nhonh! Parece que nasceram um para o outro.
DR. LIMA - Ah! Temos romance?
JORGE - Qual, doutor!... So idias de Joana.
40
DR. LIMA - Havemos de conversar a este respeito. Corri a casa. Est bem
acomodado.... Tem o que  preciso para um moo solteiro.
JOANA - Oh! Ainda falta muita coisa! Mas h de vir com o tempo.
DR. LIMA - E graas aos teus cuidados. Mas no te esqueas, Joana! Vai
aprontar o quarto do doutor.
JOANA - Sr. doutor fica morando aqui?
JORGE - Ento!
DR. LIMA - J tomei um quarto no Hotel da Europa.
JORGE - Como, doutor?... No esperava.
DR. LIMA - Desculpe, meu amigo! Tenho os meus hbitos. J estou velho.
No quero nem incomod-lo, nem incomodar-me.
JORGE - Ao menos h de jantar conosco...
DR. LIMA - Hoje no  possvel.
JORGE - Ora! No o deixo sair. Lembre-se que dia  hoje.
DR. LIMA - J me disse.  o dia de seus anos.
JORGE - E o da sua chegada!... Mas pertence tambm a Joana.
DR. LIMA -  verdade.
JORGE (a JOANA) - Vai! Olha que o doutor chega da Europa onde se cozinha
perfeitamente. Hs de deitar trs talheres.
JOANA - Nhonh espera mais algum?
JORGE - Quantos somos ns?
JOANA - Nhonh!... Logo no v!... Joana sentar-se na mesa com seu
senhor!... Credo!
JORGE - J te disse, Joana!... Aqui no h nem senhor, nem escrava... Se
me tornas a falar assim, ralho contigo.
41
JOANA - Ser a primeira vez.
JORGE - E quem ter a culpa?... Anda! Quem desembarca precisa jantar
cedo.
DR. LIMA - Mas, decididamente, Jorge, no posso.
JORGE - Srio, doutor?
DR. LIMA - Se lhe recuso isto,  que tenho motivo forte.
JORGE - Neste caso no insisto. (Escreve.)
DR. LIMA - Outro dia! Breve... Hoje deitars apenas dois talheres, Joana;
um para Jorge e outro para ti.
JOANA - No lembre mais isto, meu senhor!
JORGE - No acha que deve ser assim?
DR. LIMA - Decerto. (Baixo a JOANA) Seno, fico.
JOANA - Est bom... Ser como Vm. quiser.
DR. LIMA - E no jantar ho de beber duas sades.
JORGE -  sua, doutor.
DR. LIMA -  minha sim, mas em primeiro lugar  de sua me.
JORGE - E  de Joana.
DR. LIMA - Tambm!
JORGE - Joana, escuta. Permite, doutor?
DR. LIMA - Pois no!
JORGE - Leve esta carta a D. Elisa.
JOANA - A iai?... D c, nhonh.
JORGE No!... Melhor  que eu no lhe escreva.
JOANA - Que tem isso agora?
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JORGE - Ela pode ofender-se!... Desce e procura saber que tem, seu pai.
JOANA - Sim, nhonh!... Vou j.
JORGE - No te demores!
JOANA - Meu senhor doutor ainda fica?
DR. LIMA - No. Tambm vou.
JORGE - Espere um momento.
JOANA - Sr. doutor tem que fazer, nhonh.
JORGE - Vai, Joana.
DR. LIMA - Adeus. Basta de maada.
CENA VIII
DR. LIMA e JORGE
JORGE - Que pressa  essa, doutor? Sente-se.
DR. LIMA - Teremos muitas ocasies de conversar.
JORGE - Sem dvida; mas estou impaciente por saber de sua boca o nome
de minha me.
DR. LIMA - De... sua me?
JORGE - Sim, doutor.
DR. LIMA Tambm eu o ignoro, Jorge.
JORGE - Mas, doutor, eu fui criado em sua casa. Devo-lhe a educao..
DR. LIMA Pela ltima vez lhe digo, Jorge... Nada me deve... Nada
absolutamente!
JORGE - Ora, doutor!...
DR. LIMA - Dou-lhe minha palavra, e sabe que nunca a dou debalde.
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JORGE - Creio, doutor.
DR. LIMA - Pois dou-lhe minha palavra que nunca despendi um real com a
sua educao... Quando o quisesse, no podia... Sou pobre!
JORGE - Mas ento quem pagava as despesas que eu fazia?
DR. LIMA - Sua me.
JORGE - E a ocultam de mim!
DR. LIMA - No a conheci... Escute, Jorge. Todo o segredo do seu
nascimento  este.
JORGE - Fale, doutor.
DR. LIMA - Uma noite fui chamado a toda a pressa para ver meu amigo
Soares...
JORGE - Meu pai!
DR. LIMA - Quando cheguei, seu pai j estava moribundo. Apenas me viu,
estendeu-me a mo, balbuciando estas palavras: "Meu filho... sua me..." E
expirou.
JORGE - E nada mais?
DR. LIMA - Nada mais. Trouxe-o para minha casa, onde Joana o criou.
JORGE - Joana; a nica herana de meu pai!
DR. LIMA - A nica!...  verdade.
JORGE - Tambm ela ignora!... Mas doutor, no me disse como esses
suprimentos se faziam.
DR. LIMA - De uma maneira muito simples. Quando o senhor precisava de
roupa, livros ou qualquer objeto, vinham traz-lo  casa.
JORGE - Quem?
DR. LIMA - Caixeiros... alfaiates...
JORGE - E nunca lhe disseram?
44
DR. LIMA - Se eles no sabiam?
JORGE - Assim estou condenado a ignorar sempre o nome de minha me.
DR. LIMA - No se ocupe com isto!... Algum dia, quando menos esperar, h
de saber. Continue a portar-se como homem de bem, e deixe o mais 
Providncia.
JORGE - Mas  triste, doutor.
DR. LIMA - Quem sabe?... Quantas vezes esse mistrio no  uma
felicidade.
JORGE - No o percebo.
DR. LIMA - Quantas vezes a revelao no perturba as relaes de pessoas
que se estimam, e no acarreta sobre elas o oprbrio e a desonra...
JORGE -  possvel?... Sacrificar-se o filho ao egosmo.
DR. LIMA - No acuse, Jorge.
JORGE - Tem razo, doutor.
DR. LIMA - J se viram pais que se ocultaram para no envergonhar os
filhos do seu nascimento.
JORGE - No diga isto, doutor!... Um filho nunca se pode envergonhar de
seu pai!
DR. LIMA - Mas suponha que ele teve a desgraa de sofrer uma
condenao... Que tornou-se indigno...
JORGE - Nem assim! No h motivo que justifique semelhante ingratido.
DR. LIMA - Nem um?...
JORGE - Nem um, doutor! Se pois  essa a razo... -
DR. LIMA - Que lembrana!... Foi apenas uma suposio... J lhe disse
quanto sabia.
JORGE - D-me a sua palavra?
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DR. LIMA - Jorge, no se esteja a afligir com estas coisas, que no fim de
contas nenhuma influncia tm sobre a vida... Adeus.  tarde.
JORGE - Estou convencido agora de que sabe mais do que disse.
DR. LIMA - Engana-se.
JORGE - Por que no me d a sua palavra?
DR. LIMA - No vale a pena.
CENA IX
Os mesmos e JOANA
JOANA - Ainda est aqui, meu senhor?
DR. LIMA - Esperava que chegasses.
JORGE - Ento, Joana?
JOANA - J fui, nhonh.
DR. LIMA - Meu amigo, o senhor tem que conversar com Joana. Deixo-o.
At amanh.
JORGE - At amanh, doutor. Hei de procur-lo.
DR. LIMA - J lhe disse onde estou... Hotel...
JORGE - Da Europa.
DR. LIMA - Justo! Mas no sei se ficarei l.  caro para os pobres.
JOANA - Ora, meu senhor andou viajando.
DR. LIMA -  o que tu pensas!... Gasta-se por l metade do que 
necessrio para viver aqui modestamente.
JORGE - Reflita no que lhe disse. Faz mal em ocultar-me.
DR. LIMA - No pense mais nisso.
46
CENA X
JORGE e JOANA
JOANA - O que  que o Sr. doutor no quer dizer a nhonh?
JORGE - Uma coisa que no te interessa.
JOANA - Nhonh no quer que Joana saiba seus segredos... No pergunto
mais.
JORGE - No  por isso.
JOANA - Deve ser assim mesmo, nhonh... Quem  esta pobre mulata para
que Vm. lhe conte sua vida!
JORGE - Est bom, Joana! Eu te digo... Perguntei ao doutor quem era minha
me.
JOANA - Ah! E ele?...
JORGE - Respondeu o mesmo que tu. Mas que soubeste de Elisa?
JOANA - De iai D. Elisa...
JORGE - J no te lembras?
JOANA - Lembro, lembro, nhonh!... Ela est muito triste; porm no quis
dizer porqu.
JORGE - E seu pai?
JOANA - Sr. Gomes saiu. Iai perguntou se Vm. estava em casa... Talvez
ela queira falar com nhonh.
JORGE - Vou v-la.
JOANA - V, nhonh. Como ela h de ficar contente! JORGE - Ests com as
tuas idias.
47
JOANA - Pois ento, nhonh!... Aonde  que se viu um parzinho mais igual.
JORGE - Achas que sim?
JOANA - E no sou eu s!... Quando nhonh descer, cerra a porta. Eu vou
enxaguar uma roupa l dentro, pode algum entrar.
CENA XI
JORGE e ELTSA
JORGE - Elisa!
ELISA - No me leve a mal, Sr. Jorge.
JORGE - O que, Elisa?
ELISA - Este passo que dei... Se soubesse!
JORGE - Conte-me!... Que sucedeu a seu pai?
ELISA - Uma desgraa!... Ele no esteve aqui?
JORGE - H pouco... bastante perturbado... E no me disse o motivo por
que me procurava.
ELISA - Faltou-lhe a coragem... Meu pobre pai!
JORGE - O que foi?... A que vinha ele?
ELISA - Vinha... Vinha pedir-lhe emprestado... Oh! como lhe custou!
JORGE - Mas... por que repeliu o oferecimento que lhe fiz...
ELISA - Teve vergonha de aceit-lo... E, entretanto, era para salvar a sua
vida!...
JORGE - A vida de seu pai! Como, meu Deus!... Elisa! explique-me o que se
passa...
ELISA - Estou to aflita... Nem posso falar... Desculpe, Sr. Jorge!...
JORGE - Descanse um pouco!
48
ELISA - No! deso j. No devo me demorar aqui!
JORGE - Tem receio... No est em sua casa? Esqueceu-se!
ELISA - Se no tivesse tanta confiana no senhor, subiria aqui?... morreria
antes. Veria morrer meu pai! Mas no teria nimo...
JORGE - Diga-me... O que houve?
ELISA - Meu pai vendeu tudo quanto tinha para pagar as suas dvidas...
JORGE - Sossegue! No lhe faltar o necessrio.
ELISA - Oh! se fosse isto!... Eu posso trabalhar... Mas uma coisa horrvel,
uma calnia... Dizem que meu pai falsificou uma letra!
JORGE - Ah!
ELISA - Meu pai, o homem mais honrado...
JORGE - Incapaz de semelhante ao.
ELISA - Teme ser condenado... Diz que no pode resistir  vergonha... Quer
matar-se!
JORGE - Que loucura!
ELISA - Mas ele o far! Olhe!
JORGE - O que  isto, Elisa?
ELISA - Veneno, Sr. Jorge... Veneno que meu pai trazia consigo, porque h
muitos dias essa idia o persegue.
JORGE - D-me este vidro. Eu falarei a seu pai.
ELISA - No lhe fale, no!... Ele se irritaria... sem mudar de teno. J
supliquei de joelhos!
JORGE - Ento confessou-lhe.
ELISA - Tudo... E disse-me que se no tivesse fora para lutar contra a
desgraa, ainda a ficaria bastante... para mim!
49
JORGE - Cale-se, Elisa.
ELISA - " a nica herana de teu pai" - me disse ele chorando.
JORGE - Est louco!...
ELISA -- No, Sr. Jorge! Ele tem razo! Devemos morrer juntos!
JORGE - Havemos de viver juntos, Elisa. Porque juro que salvarei seu pai.
Mas preciso v-lo.
ELISA - No lhe diga que lhe contei...
JORGE - Como saberei as circunstncias do fato que lhe imputam?
ELISA - Ele mesmo nada sabe... seno que um homem O procurou h
pouco e ameaou-o de entregar a letra falsificada  polcia, se lhe no
pagasse hoje s cinco horas da tarde!
JORGE - Em quanto monta essa letra?
ELISA - Em 500$OOO.
JORGE - E paga ela, seu pai est salvo?
ELISA - Da desonra... e da morte... sim!
JORGE - No tenho agora essa quantia... Mas prometo arranj-la, Elisa.
ELISA - No, no consinto, Sr. Jorge! No era isso que lhe vinha pedir...
JORGE - Qualquer estranho o faria para salvar a vida de seu
ELISA - Eu no lhe devia ter dito!... Mas a idia de ver morrer meu pai!
JORGE - Elisa!... Repila essa idia!... Confie em Deus!
ELISA - Em Deus e no senhor!... Quem tenho eu mais na terra, alm de
meu pai?
JORGE - Preciso sair... Daqui a uma hora voltarei! Hei de salv-lo!
ELISA - Vou com essa esperana!...
50
CENA XII
JORGE e JOANA
JORGE - Quinhentos mil-ris!...
JOANA - O que , nhonh?
JORGE - Deixa-me!...
JOANA - Meu Deus!... Perdo!... Que lhe fiz eu, nhonh?
JORGE - Nada.
JOANA - Contaram-lhe alguma coisa!... No acredite!...
JORGE - Em que?
JOANA - No acredite no que lhe disseram.
JORGE - E tu sabes o que me disseram?
JOANA - No!... no sei... Mas no  verdade!... Eu lhe juro, nhonh.
JORGE - No te entendo, Joana! Perdeste a cabea?
JOANA - Mas... Que tem nhonh ento?
JORGE - Estou desesperado!
JOANA - Por qu?
JORGE - Preciso de dinheiro... e no sei como hei de obt-lo. (Sai.)
JOANA - Ah!
ATO TERCEIRO
Em casa de JORGE. A mesma sala.
CENA PRIMEIRA
51
JORGE e JOANA
JORGE - O doutor no veio?...
JOANA - Depois que nhonh saiu?... No!
JORGE - J no sei o que faa!
JOANA - Nhonh no achou o dinheiro de que precisa?
JORGE - Qual!... Fui ao doutor, no estava... Deixei-lhe uma carta. Procurei
um homem que me costumava emprestar s vezes... Exige penhor... Que
posso eu dar?... S tenho esta moblia!
JOANA - Mas a casa h de ficar sem trastes?
JORGE - Que remdio, Joana!... Prometeu vir daqui a pouco avaliar...
Quanto podero valer essas cadeiras?... Uma bagatela... cem mil-ris?
JOANA - Valem muito mais!...
JORGE - O meu relgio deu-me apenas cinqenta!
JOANA - Nhonh foi empenhar o seu relgio?...
JORGE - Que havia de fazer?
JOANA - Jesus!... Que pena!... Mas Sr. doutor j h de ter recebido a
carta... No deve tardar por a.
JORGE -  a minha nica esperana.
JOANA - Enquanto ele no chega, venha jantar, nhonh; so mais de trs
horas.
JORGE - No quero jantar agora, Joana... Estou fatigado... inquieto...
Depois.
JOANA - Almoou to pouco!
JORGE - Almocei como de costume. No tenho disposio.
JOANA - Nhonh no se agasta se eu lhe perguntar uma coisa?...
52
JORGE - Podes perguntar.
JOANA - No  s para saber, no...  que talvez Joana possa remediar...
Esse dinheiro de que nhonh precisa para que ?
JORGE - Se o segredo me pertencesse, eu to diria.
JOANA - Ah!  um segredo... Mas precisa mesmo?...
JORGE - Daria metade da minha vida para obt-lo.
JOANA - Pois ento, nhonh, fique descansado! Tudo se h de arranjar.
JORGE - Como, Joana?... Por que meio?
CENA II
Os mesmos e DR. LIMA
JORGE - Ah!  o doutor...
JOANA - Ele mesmo!...
DR. LIMA - Apenas recebi a sua carta, meti-me num tlburi e aqui estou.
Que temos?
JORGE - Creia, doutor, que s uma circunstncia extraordinria me
obrigaria a recorrer  sua amizade.
DR. LIMA - Nada de prembulos, meu amigo. Eu o conheo. Em que lhe
posso servir?
JORGE - Preciso, doutor...
DR. LIMA - De qu? No se vexe!
JORGE - Talvez repare...
DR. LIMA - Precisa de dinheiro... No ?
JORGE -  verdade.
DR. LIMA - De quanto?
53
JORGE - De quinhentos mil-ris... Reconheo que  uma quantia avultada.
DR. LIMA - At a chegam as minhas foras. Amanh lhos trarei.
JORGE - Amanh?
DR. LIMA - Apenas tire o meu fato da alfndega.
JOANA - Ora, bravo... Est tudo arranjado. Eu bem sabia que meu senhor
Dr. Lima era um amigo de mo cheia.
JORGE - Mas eu preciso para hoje s quatro horas sem falta.
DR. LIMA - Eis o que  impossvel. Trs e dez... A alfndega est fechada...
os meus papis esto na mala... A ningum conheo... Entretanto vou
tentar.
JORGE - Inda mais incmodo!... Com efeito, o senhor deve fazer bem triste
idia de mim!
DR. LIMA - Jorge!... No me ofenda!
JORGE - Parece que o estava esperando para importun-lo... Mas quando
souber o motivo me desculpar.
DR. LIMA - No quero que mo declare; sei que  honroso, e isto basta-me.
JORGE - Muito obrigado!
DR. LIMA - No percamos tempo. Se no estiver aqui s quatro horas, 
que nada consegui.
CENA III
JORGE e JOANA
JORGE - Est acabado!... Morrerei tambm!
JOANA - Nhonh! No diga isso!... H de ter esse dinheiro.
JORGE A ltima esperana foi-se!
54
JOANA - Ainda no, nhonh! No  de quinhentos mil-ris que precisa?
JORGE - Onde irei eu ach-los?
JOANA - Mas... sua mulata assim mesmo velha, ainda vale mais do que
isso.
JORGE - Que queres dizer, Joana?
JOANA - Nhonh no me deu este papel?... Eu no careo dele!
JORGE - A tua carta!... Ests louca?
JOANA - Oua, nhonh...
JORGE - No quero ouvir nada.
JOANA - Mas nhonh prometeu dar esse dinheiro.
JORGE - Prometi.
JOANA - Ento! H de faltar  sua palavra... E falar em morrer...
JORGE - Queres que para evitar um mal, cometa um crime?... Que roube a
liberdade que te dei?...
JOANA - Nhonh no rouba nada!... Eu  que no quero... No pedi!...
JORGE - Que importa?... O que dei no me pertence.
JOANA - Pois eu no aceito! Veja...
JORGE - Que vais fazer?
JOANA - Nhonh no h de obrigar... No sou forra!... No quero ser!... No
quero!... Sou escrava de meu senhor!... E ele no h de padecer
necessidades!... Tinha que ver agora uma mulher em casa sem fazer nada,
sem prestar para coisa alguma... E meu nhonh triste e agoniado.
JORGE - No recebo o teu sacrifcio.  escusado. Depois, de que me serviria
isto?
JOANA - Mas vem c, nhonh... Vm. no disse esta manh que h muito
tempo me queria forrar?
55
JORGE - E disse a verdade.
JOANA - Quem duvida?... Mas no forrou porque tinha pedido um dinheiro
emprestado com... No sei como se chama.
JORGE - Com hipoteca?
JOANA - Isso mesmo!... Pois que custa nhonh pedir outra vez esse
dinheiro emprestado?
JORGE - Tu j no s minha escrava.
JOANA - O que sou eu ento!... Nhonh no me quer mais... No presto
para nada... Pacincia!
JORGE - Ests forra.
JOANA - Mas eu rasguei o papel.
JORGE -  indiferente. Eu o escrevi.
JOANA - Que tinha que fizesse isto? Amanh, Sr. Dr. Lima trazia o dinheiro,
e estava tudo direito.
JORGE - V quem est batendo. Deve ser o Peixoto.
JOANA - Mas ento, nhonh?
JORGE - Abre a porta.
CENA 1V
Os mesmos e ELISA
JOANA - Iai D. Elisa!
ELISA - Sr. Jorge. (JOANA afasta-se.)
JORGE - Nada obtive ainda, Elisa.
ELISA - Meu Deus!... Ele j me perguntou pelo vidro!... Eu lhe respondi...
Nem sei o que lhe respondi!... So mais de trs horas...
56
JORGE - No desespere, Elisa! Ainda temos tempo. V fazer-lhe companhia.
No o deixe.
ELISA - Oh! se as minhas lgrimas o salvassem!
JORGE - Em ltimo caso, se nada conseguir, irei ter com ele... No o
deixarei realizar o projeto que medita.
ELISA - Mas ficar desonrado... Acusado de falsificador, ser demitido...
Cuida que resistir?
JORGE - Procuremos salvar-lhe a honra... Se no for possvel, de duas
desgraas a menor... a que ainda pode ser reparada!
ELISA - Conto com o senhor!... No nos abandone, Sr. Jorge.
JORGE - V descansada! Talvez mais cedo do que pensa eu possa levar-lhe
uma boa notcia!... Se houver alguma coisa de novo, venha me dizer!.
JOANA - Que tem iai que est to triste?
ELISA - Logo te direi, Joana.
JOANA - Sua mulata de nada serve, mas...
ELISA - Sei quanto s boa! Porm no me podes valer.
JOANA - Quem sabe, iai?
CENA V
JORGE e JOANA
JORGE - Joana!... Aceito o sacrifcio que me fazes!.
JOANA - Qual sacrifcio!... Isso  o que nhonh devia ter feito logo. J
estava livre de cuidados.
JORGE - No o aceitaria nunca se no fosse para o fim que ... Para salvar a
vida de um homem... de um pai!
JOANA - Do Sr. Gomes?
57
JORGE - Sim, do pai de Elisa.
JOANA - Por isso  que iai est com os olhos vermelhos de chorar!... Pois
nhonh sabia e recusava!...
JORGE - Nem imaginas quanto me custa!... H muito tempo no tenho uma
to grande satisfao como a que senti hoje dando-te a liberdade, Joana!
Nunca o dinheiro ganho pelo trabalho honesto me inspirou to nobre e to
justo orgulho!... E destruir agora a minha obra!... Ah! Elisa no sabe que fel
me fazer tragar as suas lgrimas!
JOANA - Est bom, nhonh, no esteja triste!'... Tudo vai se arranjar...
daqui a uma semana, se tanto, que festa no h de haver nesta casa!
JORGE - Se eu j tiver restitudo o que hoje confias de mim com tanta
generosidade. Antes disso juro que no gastarei seno o que for
absolutamente necessrio para viver.
JOANA - E por que agora nhonh h de se privar do que precisar?
JORGE - O devedor que assim no procede, rouba ao seu credor. E se
houve dvida sagrada no mundo  esta que vou contrair contigo.
JOANA - No, vejo nada de maior.
JORGE - Aumentas o sacrifcio, diminuindo-lhe o valor.
JOANA - Nhonh hoje no est bom, no! To cheio de partes!...
JORGE - Ser o doutor?
CENA VI
Os mesmos e PEIXOTO
PEIXOTO - Com licena!
JORGE - Ah!... Faz obsquio de sentar-se?
PEIXOTO - Tardei um pouco. Tive que fazer.
JOANA -  o homem dos trastes, nhonh?
58
JORGE - E o doutor nada!
JOANA - No achou.
PEIXOTO - Vamos a isso! Falou-me na sua moblia.  esta?
JORGE - Sim, senhor. Tenho tambm alguns trastes na varanda.
PEIXOTO - Jacarand... Mais de meio uso.
JOANA - Quase nova, meu senhor...
PEIXOTO - Tem alguns dois anos de servio.
JOANA - Jesus!... Nem dois meses!
PEIXOTO - Ento foi comprada em leilo. No h que fiar agora. Imaginem
trastes velhos por novos... Lixa e verniz... No custa.
JORGE - Mas quanto d o senhor?
PEIXOTO - Por isto que aqui est... ltimo preo oitenta mil-ris. No vale
mais.
JORGE - Oitenta s?
PEIXOTO - S. E no  pouco.
JOANA - Ora, meu senhor! Mais do que isto custou o sof.
PEIXOTO - Pode ser. No dou mais.
JORGE - E pela minha cama?...  de mogno macio.
PEIXOTO - Vejamos. (Entra na alcova.)
JOANA - Mas nhonh h de ficar sem a sua cama? Isso no tem jeito
nenhum.
JORGE - Comprarei outra depois.
JOANA - Melhor  fazer o que lhe disse, nhonh.
JORGE - Deixa ver... Talvez no seja preciso.
59
PEIXOTO - A cama e a moblia da sala... Fica tudo por cento e vinte mil-ris.
Tem mais alguma coisa?
JOANA - Tem, sim, meu senhor!... Tem esta escrava! Quanto acha Vm. que
ela vale?
PEIXOTO - Ah! Isto  outro caso!... (A JORGE) Quer renovar a hipoteca
sobre ela?
JOANA - Quer... Ele quer... Pois j no disse?...
PEIXOTO - No ouvi! Ento fica sem efeito o negcio dos trastes?
JOANA - Fica, meu senhor!... No , nhonh?
JORGE - No sei.
PEIXOTO - Em que ficamos?
JOANA - Devem ser quatro horas!
JORGE - Quatro horas!?... Que decide, senhor?
PEIXOTO - Sobre a mulata?
JORGE - Sim!
PEIXOTO - Dou-lhe sobre ela trezentos mil-ris.
JORGE - Como, senhor?!... No lhe estava hipotecada por seiscentos milris
que acabei de pagar hoje?
PEIXOTO - Foi em outro tempo! Hoje est velha.
JOANA - Eu velha, meu senhor!... Mal tenho trinta e sete anos... Depois no
sou qualquer mulatinha como essas preguiosas que no entendem de
outra coisa seno de estar na janela!... Eu sei pentear e vestir uma moa
que faz gosto. Melhor do que muita mucama de fama.
PEIXOTO - No tenho filhas.
JOANA - Mas eu tambm sei coser, lavar, engomar. Que pensa meu
senhor?... Onde me v, no  por me gabar... Dou conta do arranjo de uma
casa... Varro, arrumo tudo, cozinho, ponho a mesa; e ainda me fica tempo
60
para fazer as minhas costuras, remendar os panos de prato, arcar as
panelas... Pergunte a nhonh!
JORGE - Joana, eu te peo!
JOANA - Olhe, meu senhor! D quinhentos mil-ris, que no se h de
arrepender!... D sem susto, porque o mais tarde, o mais tarde, amanh
meu nhonh vai lhe pagar.
PEIXOTO - No posso. Tu no ests segura...
JOANA - Eu no preciso, meu senhor!... Prometo a Vm. que no morro!...
No  capaz!... Tenho vida para cem anos. Vm. no conhece esta mulata,
no. Seguro... Isto  para a gente de hoje!...
JORGE - Escuta, Joana.
JOANA - Nhonh espere... Ento Vm. no d os quinhentos mil-ris?
PEIXOTO - Veremos: veremos! Conforme as condies que teu senhor
aceitar.
JOANA - Logo vi que Vm. havia de chegar... Porque olhe!... Tambm por
menos, estava bem livre!... - O que , nhonh?
JORGE (a meia voz) - Deixa-nos a ss Quero tratar com este homem.
JOANA - E que tem que eu esteja aqui, nhonh?
JORGE - Em tua presena nunca poderei.
JOANA - Pois eu vou. No se arrependa, nhonh. D. Iai Elisa est
esperando... Coitadinha!...
CENA VII
JORGE e PEIXOTO
PEIXOTO - Est disposto a efetuar o negcio?
JORGE - Por quinhentos mil-ris dados imediatamente.
61
PEIXOTO - J vejo que nada fazemos.
JORGE - O senhor supe que estou, como certas pessoas com quem trata,
procurando rodeios para tirar-lhe a maior soma possvel. Engana-se.
PEIXOTO - No suponho tal.
JORGE - Tenho urgente necessidade de quinhentos mil-ris, hoje, dentro de
meia hora. Desde que no  possvel obter esta quantia, o negcio no me
convm. E no sei, Sr. Peixoto, se deva agradecer-lhe.
PEIXOTO - Ento precisa de quinhentos mil-ris?
JORGE - Justos.
PEIXOTO - Pois no seja esta a dificuldade. Dou-lhe esse dinheiro sobre a
escrava.
JORGE - J?
PEIXOTO - No o trago aqui, mas vou busc-lo... num instante... Isto , eu
ainda no examinei a pea... mas podemos terminar isto.
JORGE - Que  preciso fazer?... Ir a um tabelio...
PEIXOTO - Levaria muito tempo. Distribuir a escritura... pagar selo... Nem
amanh se concluiria.
JORGE - Mas eu preciso hoje.
PEIXOTO - H meio de remediar tudo. Faa um penhor!
JORGE - Para que o senhor a leve?
PEIXOTO - Um simples escrito, e est o negcio arranjado.
JORGE - Isso de maneira alguma! Pensei que era o contrato que j fizemos!
Joana hipotecada ao senhor, mas sempre em minha casa!.
PEIXOTO - Deste modo nem  possvel, nem eu lhe daria os quinhentos milris.
Devo lucrar os servios.
JORGE - Por algumas horas... Pois amanh...
62
PEIXOTO - L isso no sei... Pode ser por meses.
JORGE - No tenho nimo de separ-la de mim, de tir-la de casa!
PEIXOTO - Pois resolva-se!... Vou ao escritrio buscar o dinheiro. Daqui a
cinco minutos venho saber a resposta.
JORGE -  escusado... Para que se incomodar?
PEIXOTO - Tenho um negcio para estas bandas. At j.
CENA VIII
JORGE e JOANA
JOANA - Arranjou-se tudo, nhonh! No foi?
JORGE - No fiz nada; estou na mesma.
JOANA - O homem teimou em no dar os quinhentos mil-ris?
JORGE - Dava: mas com uma condio que no quis... que no devia
aceitar.
JOANA - Qual, nhonh?
JORGE - No entendes de negcio. Tanto faz dizer-te como no.
JOANA -  verdade que Joana no estudou como os homens que vo 
escola! Mas... Nhonh no faa pouco... Eu sei muita coisa. Pode ser que
lembre uma idia boa.
JORGE - No fazemos nada, Joana. O melhor  resignar-me.
JOANA - Ento nhonh deixa morrer o pai de iai D. Elisa?
JORGE - Ele h de atender-me!...  impossvel que um homem razovel
persista em fazer semelhante loucura.
JOANA - Mas Vm. prometeu a iai... E quando ela vier que lhe h de
responder?
63
JORGE - O qu?... Que esta vida no vale as lgrimas que custa!
JOANA - Nhonh!... No se lembre disso!
JORGE - Que hei de fazer, Joana?
JOANA - Se no tivesse deixado o homem sair.
JORGE - Ele ficou de voltar para saber a resposta.
JOANA - Que resposta?
JORGE - Da condio que me props... Queria que te desse em penhor.
JOANA - Que eu fosse para a casa dele?
JORGE - Bem vs que no devia aceitar!
JOANA - Nhonh precisa do dinheiro... Aceite!... Mas  por hoje s, no ?
JORGE - Unicamente!... Amanh, apenas o doutor chegasse, iria te buscar.
JOANA - Pois ento!... Uma tarde depressa se passa!... Nhonh no faltar
ao que prometeu.
JORGE - Elisa vai agradecer-me o que s dever a til Assim  este mundo.
JOANA - Eu no fao nada por iai D. Elisa...  por meu senhor...
JORGE - O Peixoto est se demorando! Se no voltar!
JOANA - Eu vou cham-lo.
JORGE - Espera!... s vezes tenho vontade que ele no venha.
JOANA - Ah! se o Sr. doutor aparece por a!
JORGE - No ouves subir?
JOANA - Vou ver.
CENA IX
Os mesmos e PEIXOTO
64
PEIXOTO - J sei que resolveu-se?
JORGE - As circunstncias me foraram.
PEIXOTO - Ora bem! Fechemos o negcio. Vem c, mulata.
JOANA - Meu senhor!
PEIXOTO - Deixa l ver os ps!
JOANA - Meu senhor est desconfiado comigo! Eu no tenho doena!... Se
nunca senti me doer a cabea, at hoje, graas a Deus!
PEIXOTO - T, t, t, cantigas!... Vamos!... No te faas de boa!
JOANA - Ningum ainda me tratou assim, meu senhor!
PEIXOTO - Anda l!... Mostra os dentes!
JOANA - Todos sos!
PEIXOTO -  o que esta gente tem que mete inveja! Se fosse possvel
trocar!... E no tens marca?
JORGE - Senhor! Acabe com isto!... No posso mais ver semelhante cena.
PEIXTO - Quem d o seu dinheiro, Sr. Jorge, deve saber o que compra...
Se no lhe agrada...
JORGE - Est no seu direito; quem lhe contesta?... Mas terminemos com
isto de uma vez.
PEIXOTO - No desejo outra coisa. Ento tens as tais marcas, hein?...
JOANA - Fui mucama de minha senhora moa, que me tratava como sua
irm dela. Sa para o poder de nhonh, que at hoje nunca me disse
"Joana, estou zangado contigo!"
PEIXOTO - Tens um bom senhor, j vejo!
JORGE - Perdoa, Joana, o por que te fiz passar!
JOANA - No foi nada, nhonh.
65
PEIXOTO - Muito bem! Aqui est o papel.
JORGE - O senhor enganou-se!... Seiscentos mil-ris?
PEIXOTO -  difcil enganar-me. So mesmo seiscentos mil-ris.
JORGE - Mas eu pedi-lhe quinhentos mil-ris.
PEIXOTO - Justo!  o que h de receber. Os cem so de juros.
JORGE - Por um dia?... Pois amanh...
PEIXOTO - No empresto por um dia! Se quiser pagar amanh, nada tenho
com isso.
JORGE - Mas receber.
PEIXOTO - Certamente!
JORGE - E ganhar em um s dia 20%.
PEIXOTO - So os riscos do negcio... Posso esperar anos sem receber.
JORGE - Nesse caso os servios.
PEIXOTO - Ainda no sei quais so. Demais, tenho alimentao, vesturio,
botica, mdico, etc.
JORGE - Enfim!... J no  tempo de recuar. (Vai  mesa assinar o papel.)
JOANA - Meu senhor, no cuide que vou lhe fazer despesas. Como um
quase nada...
PEIXOTO - Que interesse tens tu no negcio! Parece que ests morrendo
por te ver livre de teu senhor.
JOANA - Est ouvindo, nhonh?
JORGE - Mas, senhor!... Isto  um papel de venda.
JOANA - De venda?!... Nhonh me vender!
PEIXOTO. - Questo de palavras!... No v que tem a condio de retro?
JORGE - O senhor falou-me em penhor... Venda! Nunca teria consentido.
66
PEIXOTO -  uma e a mesma coisa. No penhor, se o senhor no me pagar,
a escrava  minha. Na venda a retro ela volta ao seu poder, logo que me
pague.
JORGE - Em todo o caso prefiro o penhor.
PEIXOTO - Meu caro senhor, tenho tido todas as condescendncias
possveis; mas V. Sa. no est habituado a tratar certos negcios, de modo
que nunca chegaremos a um acordo.
JORGE - Porque o senhor no diz francamente o que exige.
PEIXOTO - Essa  boa! Quer mais franqueza?...  aceitar ou largar! No
obrigo!
JOANA - Mas se nhonh lhe pagar amanh, fica meu senhor outra vez?
PEIXOTO - Que dvida!... Tem um ms para pagar! JOANA - Ento,
nhonh... Vem dar no mesmo.
JORGE - No!... no posso assinar semelhante papel! PEIXOTO - Bem! o
dito por no dito!... Outra vez far o obsquio de no me incomodar. Perdi
com o senhor a manh inteira... sem o menor proveito. (ELISA aparece.)
CENA X
Os mesmos e ELISA
JORGE - Ah! (assina) Tome, senhor. O dinheiro? (Corre a Elisa.)
PEIXOTO - Ei-lo. - Oh! Quem  esta moa?
JOANA -  a filha do Sr. Gomes.
PEIXOTO - Hum!... Percebo!
JORGE - No se importe que a vejam aqui! Se a caluniarem, eu farei calar o
infame!
ELISA - Nem sei j o que fao!...
JORGE (a PEIXOTO) - O dinheiro?
67
PEIXOTO - Aqui o tem. Faa o favor de contar.
ELISA - Este homem!...
JORGE - Que tem?
ELISA -  o que ameaou meu pai!
JORGE - Devia ter adivinhado!
ELISA - Vendo-o entrar, julguei que j vinha... Fiquei fora de mim... Subi!
H que tempo estou ali sem nimo de entrar.
JORGE - Finalmente seu pai est salvo! Tome, Elisa!...
ELISA - Oh! no, Sr. Jorge!
JORGE - Tem vergonha de aceit-los da mo de seu marido?...
ELISA - No era melhor que o senhor mesmo entregasse a meu pai?
JORG - Ele aceitaria mais facilmente de sua filha!
ELISA - Mas eu  que no posso!... No devo...
JORGE - Espere!... (A PEIXOTO) O senhor tem eu seu poder uma letra do
Sr. Gomes?
PEIXOTO - Uma letra de quinhentos mil-ris? Sim, meu senhor!
JORGE - Est paga! D-me esta letra!
PEIXOTO - Ento era esta a necessidade urgente? (D a letra.) Muito podem
uns bonitos olhos!
JORGE - Insolente!... Respeite nesta senhora minha mulher.
PEIXOTO - Perdo! No sabia.
JORGE - (a ELISA) - Agora no deve ter escrpulos.  um papel sem valor.
ELISA - Sem valor, Jorge!... Vale a honra e a vida de meu pai; vale a nossa
felicidade.
JORGE - V depressa sossegar seu pai... Ah! Agradea a Joana, Elisa.
68
ELISA - Por qu? Ela tambm se interessou por mim?
JORGE - Depois lhe direi porqu.
JOANA Eu s peo a Deus que faa meu nhonh e iai D. Elisa muito, muito
felizes!
(Durante a cena seguinte vem-se JORGE e ELISA na porta.)
CENA XI
PEIXOTO e JOANA
PEIXOTO - No tens alguma roupa?... Ou  s a do corpo?
JOANA - Tenho muita roupa, graas a Deus;  o que no me falta. Nhonh
me d mais do que eu preciso.
PEIXOTO - Pois ento vai arrumar a trouxa. E anda com isso.
JOANA - Por uma noite?... Nhonh amanh vai me buscar.
PEIXOTO - Todos eles dizem o mesmo... Amanh, amanh... e o tal amanh
dura um ano.
JOANA - Que diz, meu senhor?... Um ano!... Oh! meu nhonh no  como
esses. Vm. h de ver... Ele quer bem  sua mulata.
PEIXOTO - Vamos. Despacha-te. Vai sempre ver a roupa. No digas que te
engano.
JOANA - No, meu senhor. Se eu ficar l, o que Deus no h de permitir,
no... eu virei buscar os meus trapinhos. Agora!... Se eu os levasse... Era
como se no tivesse mais de voltar para o poder de meu nhonh!... E Joana
no poderia!
PEIXOTO - Bem! Eu c mandarei.
CENA XII
69
Os mesmos e JORGE
JORGE - Desculpe se os fiz esperar.
PEIXOTO - No manda mais nada ao seu servio?
JORGE - Tenho apenas uma splica a fazer-lhe.
PEIXOTO - Que diremos?
JORGE - Durante o tempo que esta... que Joana vai estar em sua casa.
PEIXOTO - Que  minha escrava, quer o senhor dizer.
JORGE - Peo-lhe que a trate com doura. Est habituada a viver comigo,
mais como uma companheira do que...
PEIXOTO - Escusa pedir-me isto. Sou bom senhor. O caso  saberem levarme.
Anda, mulata! Vamos.
JOANA - J?!... Me deixe dizer adeus a meu nhonh.
PEIXOTO - Pois dize l o teu adeus... E nada de choramingas.
JOANA - Meu nhonh, adeus! Sua escrava vai-se embora!
JORGE - Joana!
JOANA - No chore, nhonh.  por hoje s. No ?
JORGE - Eu te juro.
JOANA - Oh! Se no fosse, nhonh me deixava ir?
JORGE - Decerto que no!
JOANA - Mas se o Sr. doutor no vier amanh?
JORGE - Se ele faltar, meu Deus!
JOANA - No h de faltar, no. Sr. doutor  homem de palavra...
JORGE - E quando por qualquer acaso sucedesse... Ainda tenho foras para
trabalhar.
70
JOANA - Oh! meu nhonh! No  por mim que tenho medo de ficar l. Deus
 testemunha... Mas quem h de tratar de meu nhonh quando sua Joana
no estiver aqui?... Quem h de preparar tudo para que no lhe falte nada?
E se nhonh cair doente?!... Meu Jesus!... Que dor de corao s de pensar
nisso!
JORGE - Consola-te, Joana. Algumas horas depressa se passam.
JOANA -  assim mesmo, nhonh... Mas que saudades que Joana vai ter...
Ela que nunca saiu de junto de seu senhor... nem um dia... Que nunca se
deitou sem lhe tomar a bno! Nhonh tambm h de ter saudades de sua
escrava?...
JORGE - Perguntas, Joana.
JOANA - Oh! Eu sei que nhonh h de ter!... Mas no fique triste, no.
JORGE - Joana, no me faas perder a coragem... Deste modo no terei
nimo.
JOANA - Est bom, nhonh. Olhe: Joana no chora mais! Est se rindo.
Amanh ela estar aqui outra vez, servindo seu nhonh... E iai D. Elisa, Sr.
Gomes... todos contentes!
PEIXOTO - Se continuamos assim, no saio daqui hoje!  uma choradeira
que nunca mais se acaba.
JORGE - No zombe destas lgrimas, senhor! Joana me criou! Nunca nos
separamos.  toda a minha famlia! Ela e um amigo que tive hoje a
felicidade de ver. Amor de me que no conheci, amor de irm que no
tive, tudo concentrei nela!
PEIXOTO - Mas  preciso que terminemos com isto.
JORGE -  justo... Joana! Adeus! At amanh!
JOANA - At amanh!... Sim, meu nhonh!... Mas se eu lhe pedisse...
JORGE - O qu? Dize...
JOANA - No... Para qu... Incomodar o nhonh?
JORGE - Pode... O qu?
71
JOANA - Nhonh  tardinha... Quando se recolhesses... Podia passar...
JORGE - Compreendo... Eu irei ver-te, minha boa Joana.
JOANA - Que alegria que Joana ter!
PEIXOTO - No posso mais. Psiu! Mulata! segue-me!
JORGE - No lhe fale assim!
PEIXOTO - Ora, essa!  minha escrava. Posso fazer dela o que quiser.
JORGE - Usurrio!... No me obrigue a fazer uma loucura!
JOANA - Nhonh, no se altere.... Vamos, meu senhor. Estou pronta.
PEIXOTO - Passa! Anda...
JOANA - Nhonh!... Lembre-se de sua escrava.
JORGE - Meu Deus!
ATO QUARTO
Em casa de JORGE, a mesma sala.
CENA PRIMEIRA
JORGE e ELISA
ELISA - Sr. Jorge!...
JORGE - Ah! bom dia, Elisa!... Seu pai?
ELISA - Est inteiramente calmo. Saiu... Disse-me que daqui a pouco lhe
viria agradecer.
JORGE - Ele j sabe?
ELISA - Contei-lhe tudo!... No devia?
JORGE - Fez bem. Que respondeu ele?
72
ELISA - Sorriu, Jorge!
JORGE - Aprovou portanto...
ELISA - Parece...
JORGE - S nos falta para sermos felizes...
ELISA - O qu?... No me responde?
JORGE - No posso agora! Depois saber, Elisa.
ELISA - Deve ser alguma coisa que lhe pesa! Est inquieto!
JORGE -  engano!... No tenho motivo de inquietao.
ELISA - Quer ocultar de mim, que lhe contei todos os meus pesares?
JORGE - Nada oculto... So recordaes... O esprito humano  assim...
Inquieta-se, possui-se de um vago temor, quando maior razo tem de
alegrar-se.
ELISA - Pois eu o deixo... J que no posso desvanecer, no quero
perturbar essas recordaes.
JORGE -  uma queixa injusta. Fique!
ELISA - Oh! No... No posso demorar-me... No devo! Quis unicamente
agradecer-lhe... Na presena de meu pai no teria nimo.
JORGE - Por que, Elisa?
ELISA - No sei!... H certas coisas que... No posso explicar... Mas s ao
senhor as diria!
JORGE - Tem razo, Elisa! Se h poder sublime  o da alma.
ELISA - Ser talvez por isso... Eu conheo que  imprprio vir aqui! Porm
ontem a desgraa me arrastou sem conscincia do que fazia! Hoje foi a
gratido que me trouxe.
JORGE - Uma vez por todas, Elisa. No tem que me agradecer.
ELISA - Oh! Sr. Jorge!
73
JORGE - No, Elisa. O que fiz foi por egosmo. No defendia a minha
felicidade? E se algum deve ser grato, no sou eu?
ELISA - O que o senhor chama a sua felicidade, no  tambm a minha? Fui
eu que a dei ou que recebi?...
JORGE - Deu-a.
ELISA - Recebi-a com a honra e a vida de meu pai. Bem v que a gratido
me pertence e a mim s!
JORGE - De modo algum!
ELISA - No ma roube!...  a minha nica riqueza.
JORGE - E o amor, Elisa?
ELISA - Esse no me pertence!  seu!... Bem o sabe! Adeus.
JORGE - At logo, ento?
ELISA - At logo, sim... Onde est Joana?
JORGE - Joana? L dentro... saiu... creio.
ELISA - Ainda hoje no a vi!... Desde ontem  tarde!...
JORGE - Esteve ocupada talvez.
ELISA - Ralhe com ela para no ser ingrata!...  verdade!. O que ficou de
me dizer ontem?...
JORGE - Depois, Elisa!
ELISA - Tambm o senhor hoje vai deixando tudo para depois. Quando se
realizaro todas as suas promessas?...
JORGE - No dia em que se realizarem as minhas esperanas.
ELISA - Ah!... Tem bem que esperar!
JORGE - No h de ser to m.
74
CENA II
Os mesmos e JOANA
ELISA - Aqui est ela!
JORGE - Joana!
JOANA - Meu nhonh!... Como est?... Dormiu bem?... No teve nenhum
incmodo, no?... Ai, que j no podia!... Passar tanto tempo sem ver meu
nhonh! Adeus, iai.
ELISA - Estou muito agastada contigo!... Onde  que andaste?
JOANA - Eu! A mesmo, iai.
ELISA - Mas chegaste de fora... Ainda no tinhas visto Sr. Jorge hoje?
JORGE - Ainda no.
ELISA - O senhor ainda no saiu!...
JOANA - No v, iai... Sim! eu fui ontem de tarde... Aproveitei, como o
tempo estava bom... Fui lavar uma trouxa de roupa numa chcara em
Santa Teresa.
ELISA - Por isso  que no te vi mais ontem?
JOANA - Foi, iai... Foi por isso mesmo!... Mas nhonh est triste! no fala
com sua mulata.
JORGE - J te falei, Joana. Estou esperando pelo doutor!
JOANA - No tarda, nhonh... Vem sem falta. No se agonie.
ELISA - E eu no quero que me encontre aqui!
JOANA - Iai j vai?... Ento quando  o dia!
ELISA - Que dia?... Comeas com as tuas graas!
JOANA - Ora, isso  uma coisa tratada. No , nhonh?
JORGE - S falta o que tu sabes, Joana!
75
ELISA - O qu?... No me dizem?
JORGE -  um segredo!
JOANA - Iai quer saber?
ELISA - Quero, sim!...  a meu respeito?
JOANA - Escute, iai... No ouvido.  o vestido que est se fazendo.
ELISA - Mentirosa!... Cuidas que eu acredito?
JOANA - Se eu  que hei de cos-lo com estas mos!
ELISA - Antes disso tens muito que coser.
JOANA - O enxoval! No , iai?
ELISA - Joana! Por tua causa no hei de vir mais aqui. (Sai.)
CENA III
JOANA e JORGE
JORGE - Como te tratou aquele homem, Joana? No imaginas quanto me
arrependi... Entretanto se no o fizesse, quem sabe o que aconteceria!
JOANA - No tenha cuidado, nhonh! Joana vive em toda a parte... O que
tem  que sente um aperto de corao quando no pode ver seu nhonh!
JRGE - Tambm eu! Toda a noite no pude sossegar... Faltava-me alguma
coisa.
JOANA - Deveras!... Nhonh sentiu que sua Joana se fosse embora!... Como
nhonh  bom! Como quer bem  sua Joana!
JORGE - Pois duvidavas?
JOANA - Ento eu no sei que nhonh me estima!
JORGE - Muito!... E o doutor que no chega!
76
JOANA - No pode tardar. Enquanto nhonh espera, eu vou endireitar isto...
Como h de estar tudo numa desordem!
JORGE - Decerto!... no estando tu aqui...
JOANA Por isso eu hoje, logo que acordei, pedi a Nosso Senhor Jesus Cristo,
primeiro pela vida e sade de meu nhonh, de iai D. Elisa, do Sr. Gomes,
do Sr. doutor; depois prometi  Nossa Senhora uma camisinha bordada
para seu menino Jesus dela, o que est na igreja do Sacramento, se no
deixasse dar nove horas em S. Francisco de Paula sem que eu viesse ver
meu nhonh, tomar a beno a ele e fazer seu servio para que no
sentisse a falta de sua Joana.
JORGE - E sou eu que hei de cumprir a tua promessa.
JOANA - No  nhonh que me d tudo?... Depois, das mos de nhonh a
Virgem Santa h de receber com mais gosto.
JORGE - Ela a receber do teu corao, Joana.
JOANA - Mas eu  que hei de bordar a camisinha!
JORGE - Faz-te mal aos olhos o bordar.
JOANA - Para Nossa Senhora... Para seu Menino Jesus dela! Qual!
JORGE - S consinto com a condio de no trabalhares  noite.
JOANA - Pois sim, nhonh. Mas eu no disse como Nossa Senhora se
lembrou de mim!
JORGE - Como foi?
JOANA - Olhe, nhonh!... V-se mesmo que foi coisa do Cu! E h gente
que zomba e no quer acreditar!... Pois eu estava pensando no meu canto,
que volta havia de dar para ver nhonh, quando o homem me chamou e
disse: "Se algum bater fala pela janela e manda esperar. Eu costumo
fechar a porta da rua e levar a chave."
JORGE - Deixou-te presa?
JOANA No, nhonh! A  que est o milagre de Nossa Senhora! Eu fiquei
fria quando ele disse aquilo!... De repente chega uma carta! O homem l,
ataranta-se todo, e l se vai, sem chave, sem nada!
77
JORGE - E saste?
JOANA - Fechei tudo direitinho, cerrei a porta da rua e corri at aqui.
JORGE - No se zangue ele quando voltar!
JOANA - Antes disso eu hei de estar l... Deixe-me endireitar tudo...
Espanar a moblia.
JORGE - Talvez no voltes mais! Chegando o doutor...
JOANA - Quem dera, nhonh!
JORGE - No te h de alegrar mais do que a mim.
JOANA - Ora, nhonh quer se privar de sua moblia to bonita!... Simples,
mas bem feitinha!... Estas cadeiras to direitinhas... e leves!... Estes
aparadores... Parece que se tomou a medida pela casa.
JORGE - Preferia perder tudo isto a ver-te sair de minha casa... E como?
JOANA - O melhor  a gente no se lembrar mais disto! Oh! nhonh! Que
vidro  este que est aqui?
JORGE - Qual, Joana?
JOANA Este, nhonh. No v?
JORGE - Cuidado, Joana.  veneno!
JOANA - Veneno!... Nhonh!... Que quer fazer?... Mau...
JORGE - Ouve!...
JOANA - Mau, sim!... Nhonh  um ingrato!... Meu Senhor Deus!... E eu no
tive uma pancada no corao que me dissesse!
JORGE - Que ests a a inventar, Joana? Quem te disse que este veneno era
para mim?
JOANA - Ah! no era... Mas como veio parar aqui?
JORGE - Eu te explico. Ningum mais do que tu deve saber.  a prova da
tua generosidade!... O pai de Elisa.
78
JOANA - Sr. Gomes?
JORGE - Queria matar-se!
JOANA - Por causa daquela letra?
JORGE - Justamente. Elisa tirou-lhe o veneno e me confessou tudo ontem!
JOANA - Que menina! ....... No me disse nada! Foi dela que nhonh tomou
o vidro?... Mas no devia deixar por aqui.
JORGE - Esqueci-me. Tenho tido tantas preocupaes. D c.
JOANA - Eu guardo, nhonh, para deitar fora.
JORGE - V se te descuidas!...
JOANA - Est no seio. Vou atirar ao mar... Pode algum malfazejo...
JORGE - No o abras!
JOANA - Eu!... Nosso Senhor me defenda.
JORGE - A est o doutor!
JOANA - Ah!... Que ia fazendo?
JORGE - Hein?... Que foi?...
JOANA - Naquela aflio de ontem me esqueci!... Nhonh no diga nada a
ele do que se passou!... Olhe l!
JORGE - Por qu? No queres que ele te admire?
JOANA - Nhonh! Fora de graa!... No diga nada! Por tudo quanto h!
JORGE - Tens razo!...
CENA IV
Os mesmos e DR. LIMA
DR. LIMA - Ento como se arranjou?
79
JORGE - Achei quem me emprestasse, mas com a condio de pagar hoje
sem falta.
DR. LIMA - Muito bem! Eu fiz o que pude. Ontem nada consegui.
JORGE - E hoje?...
DR. LIMA - Adeus, Joana.
JOANA - Meu senhor passou bem?
JORGE - Mas ento, doutor?
DR. LIMA - O que lhe disse eu ontem?
JORGE - Que hoje s nove horas, se no pudesse antes.
DR. LIMA - Que horas so?
JORGE - No sei! Empenhei o meu relgio!...
JOANA - Ho de ser nove, meu senhor.
DR. LIMA - Menos cinco minutos. Eu aqui estou e o dinheiro comigo.
JORGE - Ah!
JOANA - Eu sempre disse! Homem de palavra, como meu senhor!...
DR. LIMA - Espera! que temos uma conta a ajustar...
JOANA - Comigo?... Eu no fiz nada!
DR. LIMA - J te falo. (A JORGE) Aqui tem. Est nesta carteira um conto de
ris. Tire o que precisar.
JORGE - Preciso de seiscentos mil-ris. Tenho oitenta, bastam-me
quinhentos e vinte.
DR. LIMA - No se acanhe!... Esses oitenta mil-ris so naturalmente o
produto do seu relgio empenhado!... V desfazer essa transao. Gaste o
que for preciso para pr em ordem os seus negcios. Depois falaremos.
80
JORGE - No lhe sei agradecer, doutor!... Se este dinheiro fosse para
matar-me a fome, eu no o receberia com tanta avidez.
DR. LIMA - Agora a nossa conta, Joana. Jorge no te deu ou tem um papel?
JOANA - Meu senhor!...
JORGE - Como soube, doutor?
DR. LIMA - Eu no estava aqui?... J se esqueceram?...
JORGE - Estava... mas...
DR. LIMA - Quando te deu esse papel, que te disse Jorge?
JOANA - A que vem isto agora, meu senhor?
DR. LIMA - Ainda!... Disse-te: "Joana, nesta casa no h mais nem senhor
nem escrava." (A JORGE) No foi isto?
JORGE - Foi, doutor, e repito.
DR. LIMA - Ora bem! Se eu te ouvir daqui em diante alguma destas
palavras, meu senhor, sua escrava, saio por aquela porta e no ponho mais
os ps aqui!
JOANA - Meu... Sr. doutor!
JORGE - Ralhe! Ralhe com ela, doutor, para ver se emenda-se.
DR. LIMA - No venho mais c e escrevo uma carta a Jorge... explicandolhe
o motivo?
JOANA - Ah! Vm. no h de fazer isto! Eu juro o que quiser.
DR. LIMA - Estamos entendidos.
JORGE - D-me licena, doutor. Vou sair um instante para saldar essa
dvida que me pesa.
DR. LIMA - Sem cerimnia! V. Enquanto espero, Joana, prepara alguma
coisa, que ainda no almocei.
JORGE - Ouves, Joana?!
81
JOANA - J. Num momento!
DR. LIMA - Ch e po, basta!... Quem toca por aqui?
JOANA -  Iai.
JORGE -  a minha vizinha do primeiro andar.
DR. LIMA - Que no tarda subir ao segundo?
JRGE - Talvez, doutor.
CENA V
DR. LIMA e JOANA
DR. LIMA - D-me o jornal!... Aquilo que eu te disse  srio, ouviste, Joana?
JOANA - Ouvi, Sr. doutor. Quer que eu jure outra vez?
DR. LIMA - No  necessrio.
JOANA - Ai!... Iai D. Elisa vai cantar! Como ela est contente hoje!
Coitadinha!  uma pombinha sem fel!... E como canta bem!... Ora, discpula
de nhonh!... Que bonita voz!... No , Sr. doutor?
DR. LIMA - Muito; h outra que eu acharia mais bonita.
JOANA - Qual?... No  capaz.
DR. LIMA - A tua, Joana...
JOANA - Gentes!... Que partes do Sr. doutor.
DR. LIMA - Se ouvisses o resto...  a tua quando me disseres que o almoo
est pronto.
JOANA - Santo Deus!... E eu a dar  taramela!... Perdo, Sr. doutor.
DR. LIMA - Perdo-te o julgares que com sessenta anos tinha tenes de
namorar-te.
82
CENA VI
DR. LIMA
(Cena muda. O doutor l o jornal, interrompendo as vezes a leitura para
ouvir o romance francs - Aiguille - que ELISA canta; afinal adormece.
Pouco depois de acabar o romance, entra JORGE.)
CENA VII
DR. LIMA e JORGE
JORGE - Que maada!
DR. LIMA - Hein!... Que ?... Que temos?
JORGE - Estou contrariado, doutor. No achei o homem.
DR. LIMA - No  culpa sua. Ele que o procure.
JORGE - Fiquei de ir levar-lhe o dinheiro, eu mesmo.
DR. LIMA - Voltar depois.
JORGE - Devo pagar-lhe hoje sem falta.
DR. LIMA - O dia apenas comeou. H tempo de sobra.
JORGE - S o encontrarei de manh.
DR. LIMA - Ora, se lhe parece!... Faa disso uma questo de honra! J o
procurou; cumpriu o seu dever. Ele que aparea.
JORGE - Aqui?
DR. LIMA - Ento!... Onde h de ser?
JORGE - Eu  que devo ir  sua casa.
DR. LIMA - H de poupar-lhe esse incmodo. No digo!
83
CENA VIII
Os mesmos, ELISA e GOMES
GOMES - No  uma visita, Sr. Jorge, que viemos fazer-lhe, minha filha e
eu.
JORGE - Sente-se, D. Elisa... Sr. Gomes, doutor!... GOMES - No  uma
visita, no.  uma romaria, como dizem que outrora faziam aos lugares
santos.
JORGE - Ora, Sr. Gomes.
GOMES - O Sr. doutor, a quem peo desculpa de minha distrao de
ontem...
DR. LIMA - No tem de qu. Vi que estava indisposto.
GOMES - Estava, como pode estar o homem a quem a honra ordena que
morra e sua filha rf pede que viva.
ELISA - Meu pai!... Esquea-se!.
GOMES - Ao contrrio devo lembrar! Devo confess-lo! No temos outro
meio de reconhecer a dedicao daquele a quem tu deves a vida do teu pai;
e eu mais do que a vida.
JORGE - Para que voltar a um passado que nos aflige a todos?
GOMES - Eu no conheo egosmo mais cruel do que o do benfeitor que
recusa o reconhecimento daqueles a quem recorreu. A gratido, Sr. Jorge,
no  s um dever;  tambm um direito.
DR. LIMA - E um direito sagrado!
JORGE - Porm, doutor, o Sr. Gomes nada me tem a agradecer. Ele o sabe;
e vou dar-lhe a prova. Estamos entre amigos, Elisa... seu pai e o meu...
DR. LIMA - Pela afeio unicamente! Nunca lhe fiz servios...
JORGE - Doutor!... No h meia hora!
84
GOMES - V, Sr. Jorge! O senhor mesmo me d razo. JORGE - No,
senhor! Oua... Eu concebi, h meses, uma esperana de cuja realizao
depende a ventura de minha vida. Amava... Amo sua filha!
GOMES - Ela me confessou, Sr. Jorge.
JORGE - Confessou-lhe unicamente que eu a amava?
GOMES - E que era...
ELISA - Meu pai!...
GOMES - No cores, minha filha. O amor puro, como o teu,  a coroa de
virgem de uma moa. Elisa tambm o ama, Sr. Jorge.
JORGE - Que fiz eu pois, Sr. Gomes, seno velar sobre a minha
felicidade?... Fui apenas egosta!... No tenho razo, doutor?...
DR. LIMA - Todos tm razo; mas  preciso que se entendam. Definamos a
situao, como dizem os estadistas quando a querem embrulhar. Jorge
pede-lhe a mo de sua filha, Sr. Gomes.
GOMES - Responde, Elisa.
ELISA - No... Logo... meu pai!
GOMES -  de ti unicamente que ele deve receber a tua mo!
ELISA - Ele j no sabe?
JORGE -  verdade! S esperamos pelo seu consentimento.
GOMES - No tenho consentimento a dar... Fao um voto pela felicidade de
ambos.
DR. LIMA - Isto  mais claro. Marquemos o dia.
GOMES - O Sr. Jorge dir.
ELISA - J!... Que pressa!
JORGE - Elisa  quem deve marcar.
ELISA - Eu no!
85
DR. LIMA - Pois marco eu. E aposto que vo todos ficar satisfeitos. Que dia
 hoje?
JORGE - Tera-feira.
DR. LIMA - Em trs dias faz-se um vestido... Sbado!
GOMES - Muito bem.
JORGE - Concordo.
ELISA - To cedo!...
DR. LIMA - Quanto  casa, esta tem as acomodaes necessrias.
JORGE - Ainda no a viu, Sr. Gomes? Venha. Quero mostrar-lhe o gabinete
que lhe destino.
GOMES - A mim!...
JORGE - Desejo que Elisa tenha seu pai junto de si. Entremos. casa de
estudante... No repare.
CENA IX
DR. LIMA e ELISA
DR. LIMA - H pouco, sem o suspeitar, deu-me grande prazer, minha
senhora. Ouvi-a cantar.
ELISA - Ah! Estava aqui?
DR. LIMA - Era um romance francs!...
ELISA - Aprendi-o a cantar sentindo-o. Por isso gosto muito dele.
DR. LIMA - Tem uma linda voz!
ELISA - Qual!... H muitos dias que no cantava! Hoje tive umas saudades!
DR. LIMA - Da msica ou do mestre?...
86
CENA X
Os mesmos e PEIXOTO
PEIXOTO - Viva, senhor!
DR. LIMA - Tire o chapu!... No v que est diante de uma senhora?
PEIXOTO - No reparo nestas coisas... A minha escrava?...
DR. LIMA - Que escrava? O senhor sabe a quem fala?
PEIXOTO - A escrava que o tal Sr. Jorge me vendeu!... Fugiu-me esta
manh!... Est acoitada aqui!
ELISA - Joana!
DR. LIMA - Tranqilize-se, D. Elisa. Joana est forra. Jorge deu-lhe ontem a
carta  minha vista!
ELISA - Ela o merecia!
PEIXOTO - Que histria est a o senhor a contar?
DR. LIMA - Digo-lhe a verdade.
PEIXOTO - Pois enganou-se!... Quero j para aqui a minha escrava!...
Seno vou  polcia!...  uma velhacada!
DR. LIMA - Lembro-lhe que no est em sua casa! De que escrava fala o
senhor!
PEIXOTO - Quantas vezes quer que lhe diga?... Da mulata Joana, que
comprei ontem!
ELISA - Ah!
DR. LIMA - O senhor mente!
PEIXOTO - Veremos!... Eu lhe mostrarei para que serve este papel. (O
doutor l o papel na mo de PEIXOTO. JOANA aparece no fundo.)
87
CENA XI
Os mesmos, JORGE e GOMES
JORGE - Cale-se.
GOMES - Este miservel aqui!
PEIXOTO - A minha escrava!
DR. LIMA - Desgraado!...
JORGE - Doutor...
DR. LIMA - Tu vendeste tua me! (JOANA foge.)
JORGE - Minha me!... Ah!...
DR. LIMA - Tua me, sim!... Digo-o alto! porque te sei bastante nobre para
no renegares aquela que te deu o ser. (Pequena pausa.)
PEIXOTO - Em todo o caso... Eu no perco o meu dinheiro.
DR. LIMA - Quanto se lhe deve?
PEIXOTO - Seiscentos mil-ris! (JORGE tira o dinheiro.)
DR. LIMA - D-me este papel.
JORGE - No o rasgue, doutor!
DR. LIMA - Para que conservar esse testemunho?
JORGE - Para exprobrar-lhe o que me obrigou a fazer!... Porque foi ela...
que tratou com esse homem.
PEIXOTO - L isso  a pura verdade.
JORGE - A carta rasgou-a!
DR. LIMA - Amor de me!...
JORGE - Ah! Meu pai!... Como deves sofrer neste momento!
DR. LIMA - Ele no teve tempo de declarar... A morte foi repentina.
88
JORGE - E ter vivido vinte anos com ela, recebendo todos os dias, a todo o
instante as efuses desse amor sublime!... E no adivinhar!... No
pressentir!... Perdo, minha me!... Onde est ela? (Sai.)
CENA XII
DR. LIMA, GOMES, ELISA, PEIXOTO e VICENTE
VICENTE (a PEIXOTO) - Alto l, camarada! (Segura-o pela gola.)
PEIXOTO - Isto so modos!
VICENTE - Bom dia, Sr. doutor e companhia.
DR. LIMA - Adeus.
PEIXOTO - Largue-me, senhor!
VICENTE - Est seguro! Deixe-se de partes.
PEIXOTO - Com que direito me priva de sair?
VICENTE - J lhe digo. (L) "Mandado de priso passado a requerimento do
Dr. Promotor!..."
PEIXOTO - Eu preso!... Por qu?
VICENTE - Por causa de certas letras...
PEIXOTO -  falso!
VICENTE - So falsas mesmo as tais letras...
PEIXOTO - Sr. Vicente...
VICENTE - Romo, meu caro senhor, Romo... Tenha a bondade de seguirme.
GOMES - Deus  justo! (ELISA entra rapidamente na alcova.)
CENA XIII
89
DR. LIMA, GOMES e JORGE
JORGE - Viu-a, doutor?... No a encontrei!... Procurei tudo!
DR. LIMA - Sossegue, Jorge! Deve ter sado... Ela nada sabe ainda! Seja
prudente... No lhe anuncie de repente!... O choque pode ser terrvel!.
JORGE - No me sei conter!... Quero abra-la!... Minha me!... Que prazer
supremo que eu sinto em pronunciar este nome!... Parece-me que aprendio
h pouco!...
GOMES - Sr. Jorge.
JORGE - Ah! Desculpe... Esqueci-me que estava aqui... O que acabo de
SABER!...
GOMES - Penaliza-me bastante, creia.
JORGE - Como, Sr. Gomes?
GOMES - Sinto muito, porm. O senhor compreende a minha posio... As
consideraes sociais...
JORGE - Acabe, senhor!...
GOMES - Esse casamento no  mais possvel!
JORGE - Ah!
DR. LIMA - Por que razo, Sr. Gomes?
JORGE - Porque no reneguei minha me!
GOMES - Sr. Jorge, eu o estimo... porm...
JORGE - Tem razo, Sr. Gomes!... O senhor me julga indigno de pertencer 
sua famlia porque eu sou filho daquela que se vendeu para salvar essa
mesma honra em nome da qual me repele!
GOMES - Que diz, senhor?...
ELISA (fora) - Jorge!... Sua me!...
JORGE - Elisa!... Aonde?... (Entra na alcova.)
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GOMES - Nas minhas circunstncias que faria, Sr. doutor?
DR. LIMA - No h consideraes nem prejuzos, senhor, que me obriguem
a cometer uma ingratido.
CENA XIV
DR. LIMA, GOMES, JORGE e JOANA
JORGE - Doutor, acuda!... Depressa!...
DR. LIMA - O qu?
ELISA - Este vidro!...
GOMES - Envenenada!...
JOANA - Um ataque!...
JORGE - E o mesmo veneno que ela arrancou-lhe dos lbios... Sr. Gomes!
DR. LIMA - Que fizeste, Joana?
JOANA - Nada, meu... Sr. doutor.
JORGE - Salve-a, meu amigo!...
DR. LIMA - S Deus!... A cincia nada pode!
JORGE - Minha me!...
JOANA - No!... Eu no sou sua me, nhonh... O que ele disse, Sr. doutor,
no  verdade... Ele no sabe...
DR. LIMA - Joana!...
JOANA - No  verdade, no!... Pois j se viu isso?... Eu ser me de um
moo como nhonh!... Eu uma escrava!... No v, nhonh, que ele se
engana?
JORGE - Me perdoa, minha me, no te haver conhecido!
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JOANA - Sr. doutor quer dizer que eu fui ama de nhonh!... Que nhonh era
meu... meu... de leite... s... s de leite!...
JORGE - Chama-me teu filho!... Eu te suplico!...
JOANA - Mas no e... no!... Eu juro...
DR. LIMA - Joana!... Deus nos ouve!
JOANA - Por Deus mesmo... Ele sabe por que digo isto!... Por Deus
mesmo... Juro... que... Ah!...
JORGE - Morta!...
ELISA - Minha boa Joana!...
JOANA - Escute, iai Elisa...  a ltima coisa que lhe peo... Iai h de fazer
meu nhonh muito feliz!... Me promete?... Queira a ele tanto bem, como
Joana queria... Mas, nem iai nem ningum pode... no!...
JORGE - Minha me!... Por que foges de teu filho, apenas ele te reconhece?
JOANA - Adeus, meu nhonh... Lembre-se s vezes de Joana... Sim?... Ela
vai rezar no cu por seu nhonh... Mas antes eu queria pedir..
JORGE - O que, me? Pede-me!...
JOANA - Nhonh no se zanga?
JORGE - Eu sou teu filho!... Dize!... Uma vez ao menos... este nome.
JOANA - Ah!... No!... No posso!
JORGE - Fala! Fala!
JOANA -  um atrevimento!... Mas eu queria antes de morrer... beijar sua...
sua testa, meu nhonh!...
JORGE - Me!...
JOANA - Ah!... Joana morre feliz!
JORGE - Abandonando seu filho.
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JOANA - Nhonh!... Ele se enganou!... Eu no... Eu no sou tua me, no...
meu filho! (Morre.)
JORGE (de joelhos) - Minha me!...
ELISA - E minha, Jorge!...
GOMES - Ela abenoe to santa unio!...
DR. LIMA - E me perdoe o mal que lhe fiz!
FIM DE "ME"
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Sobre o autor e sua obra
Jos de Alencar, advogado, jornalista,
poltico, orador, romancista e teatrlogo, nasceu
em Mecejana, CE, em 1o de maio de 1829, e
faleceu no Rio de Janeiro, RJ, em 12 de dezembro
de 1877.  o patrono da Cadeira n. 23, por
escolha de Machado de Assis.
Era filho do padre, depois senador, Jos
Martiniano de Alencar e de sua prima Ana
Josefina de Alencar, com quem formara uma
unio socialmente bem aceita, desligando-se bem
cedo de qualquer atividade sacerdotal. E neto,
pelo lado paterno, do comerciante portugus Jos
Gonalves dos Santos e de D. Brbara de Alencar, matrona pernambucana
que se consagraria herona da revoluo de 1817. Ela e o filho Jos
Martiniano, ento seminarista no Crato, passaram quatro anos presos na
Bahia, pela adeso ao movimento revolucionrio irrompido em Pernambuco.
As mais distantes reminiscncias da infncia do pequeno Jos mostram-no
lendo velhos romances para a me e as tias, em contato com as cenas da
vida sertaneja e da natureza brasileira e sob a influncia do sentimento
nativista que lhe passava o pai revolucionrio. Entre 1837-38, em
companhia dos pais, viajou do Cear  Bahia, pelo interior, e as impresses
dessa viagem refletir-se-iam mais tarde em sua obra de fico. Transferiuse
com a famlia para o Rio de Janeiro, onde o pai desenvolveria carreira
poltica e onde freqentou o Colgio de Instruo Elementar. Em 1844 vai
para So Paulo, onde permanece at 1850, terminando os preparatrios e
cursando Direito, salvo o ano de 1847, em que faz o 3o ano na Faculdade
de Olinda. Formado, comea a advogar no Rio e passa a colaborar no
Correio Mercantil, convidado por Francisco Otaviano de Almeida Rosa, seu
colega de Faculdade, e a escrever para o Jornal do Commercio os folhetins
que, em 1874, reuniu sob o ttulo de Ao correr da pena. Redator-chefe do
Dirio do Rio de Janeiro em 1855. Filiado ao Partido Conservador, foi eleito
vrias vezes deputado geral pelo Cear; de 1868 a 1870, foi ministro da
Justia. No conseguiu realizar a ambio de ser senador, devendo
contentar-se com o ttulo do Conselho. Desgostoso com a poltica, passou a
dedicar-se exclusivamente  literatura.
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A sua notoriedade comeou com as Cartas sobre a Confederao dos
Tamoios, publicadas em 1856, com o pseudnimo de Ig, no Dirio do Rio de
Janeiro, nas quais critica veementemente o poema pico de Domingos
Gonalves de Magalhes, favorito do Imperador e considerado ento o chefe
da literatura brasileira. Estabeleceu-se, entre ele e os amigos do poeta,
apaixonada polmica de que participou, sob pseudnimo, o prprio Pedro II.
A crtica por ele feita ao poema denota o grau de seus estudos de teoria
literria e suas concepes do que devia caracterizar a literatura brasileira,
para a qual, a seu ver, era inadequado o gnero pico, incompatvel 
expresso dos sentimentos e anseios da gente americana e  forma de uma
literatura nascente. Optou, ele prprio, pela fico, por ser um gnero
moderno e livre.
Ainda em 1856, publicou o seu primeiro romance conhecido: Cinco minutos.
Em 1857, revelou-se um escritor mais maduro com a publicao, em
folhetins, de O Guarani, que lhe granjeou grande popularidade. Da para
frente escreveu romances indianistas, urbanos, regionais, histricos,
romances-poemas de natureza lendria, obras teatrais, poesias, crnicas,
ensaios e polmicas literrias, escritos polticos e estudos filolgicos. A parte
de fico histrica, testemunho da sua busca de tema nacional para o
romance, concretizou-se em duas direes: os romances de temas
propriamente histricos e os de lendas indgenas. Por estes ltimos, Jos de
Alencar incorporou-se no movimento do indianismo na literatura brasileira
do sculo XIX, em que a frmula nacionalista consistia na apropriao da
tradio indgena na fico, a exemplo do que fez Gonalves Dias na poesia.
Em 1866, Machado de Assis, em artigo no Dirio do Rio de Janeiro, elogiou
calorosamente o romance Iracema, publicado no ano anterior. Jos de
Alencar confessou a alegria que lhe proporcionou essa crtica em Como e
porque sou romancista, onde apresentou tambm a sua doutrina esttica e
potica, dando um testemunho de quo consciente era a sua atitude em
face do fenmeno literrio. Machado de Assis sempre teve Jos de Alencar
na mais alta conta e, ao fundar-se a Academia Brasileira de Letras, em
1897, escolheu-o como patrono de sua Cadeira.
Sua obra  da mais alta significao nas letras brasileiras, no s pela
seriedade, cincia e conscincia tcnica e artesanal com que a escreveu,
mas tambm pelas sugestes e solues que ofereceu, facilitando a tarefa
da nacionalizao da literatura no Brasil e da consolidao do romance
brasileiro, do qual foi o verdadeiro criador. Sendo a primeira figura das
nossas letras, foi chamado "o patriarca da literatura brasileira". Sua imensa
obra causa admirao no s pela qualidade, como pelo volume, se
considerarmos o pouco tempo que Jos de Alencar pde dedicar-lhe numa
vida curta. Faleceu no Rio de Janeiro, de tuberculose, aos 48 anos de idade.
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Obras: I Romances urbanos: Cinco minutos (1857); A viuvinha (1860);
Lucola (1862); Diva (1864); A pata da gazela (1870); Sonhos douro
(1872); Senhora (1875); Encarnao (1893, pstumo). II Romances
histricos e/ou indianistas: O Guarani (1857); Iracema (1865); As minas de
prata (1865); Alfarrbios (1873); Ubirajara (1874); Guerra dos mascates
(1873). III Romances regionalistas: O gacho (1870); O tronco do ip
(1871); Til (1872); O sertanejo (1875).

